quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

GESTÃO AMBIENTAL: Empreendedorismo e conservação florestal

Por Thiago Romero

Agência FAPESP – Mais de duas centenas de municípios paulistas ampliaram suas áreas de Mata Atlântica na década passada, formando verdadeiras manchas de recuperação florestal no mapa do Estado de São Paulo. As constatação foi feita por Eduardo Ehlers, diretor de Graduação do Centro Universitário Senac, em estudo publicado na Revista de Economia e Sociologia Rural.

Segundo o trabalho, de 1990 a 1995, a área de mata perdeu 3,6% de sua extensão no estado, mas, contrariando essa diminuição, em 85 municípios o aumento da cobertura florestal superou as perdas. Esses municípios ampliaram em 13.947 hectares suas áreas totais de Mata Atlântica.

Já na segunda metade da década, entre 1995 e 2000, a tendência se repetiu: a mata encolheu mais 1,7% em todo o estado, enquanto em 131 municípios a cobertura vegetal também aumentou, de acordo com o trabalho, ganhando 23.048 hectares a mais de floresta. Dos 204 municípios paulistas que tiveram área de mata ampliada, 12 deles aparecem nas duas listas, ou seja, tiveram saldo positivo nos dois períodos analisados.

Com base nesses dados sobre a perda de cobertura vegetal no Estado, que foram colhidos nas bases de dados e outros estudos divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), pela Fundação SOS Mata Atlântica e pelo Instituto Socio-ambiental (ISA), o objetivo do trabalho foi saber os fatores que contribuíram para esse aumento de cobertura florestal.

“Partimos da hipótese, que se confirmou no estudo, de que esse inusitado aumento estaria relacionado ao avanço dos empreendimentos que não só valorizam os recursos ambientais mas que também promovem o aproveitamento econômico dessas heranças da natureza”, disse Eduardo Ehlers à Agência FAPESP.

Segundo ele, esses empreendimentos, principalmente hotéis e comércios ligados ao turismo, acabaram se tornando importantes parceiros da conservação ambiental. “Empresários de cidades como Brotas, Dourados e Corumbataí, que abrigam um conjunto de empreendimentos turísticos que dependem da natureza conservada, vêm se unindo para a criação de associações de proteção ambiental”, conta.

“A valorização do patrimônio natural passou a ser uma vantagem competitiva para a atração de clientes”, disse Ehlers. Os resultados são originários de uma pesquisa de doutorado defendida pelo pesquisador no Programa de Pós-graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo (USP).

Fiscalização eficiente
Para chegar a essas conclusões, além de revisão da produção científica sobre os principais fatores que vêm provocando a degradação da biodiversidade e sua importância ecológica e econômica, o pesquisador dividiu os procedimentos de coleta de dados em três etapas.

A primeira consistiu em uma análise da variação da cobertura florestal em municípios que, entre outros quesitos, tiveram maiores variações de população entre 1991 e 2000, possuem unidades de conservação estaduais e contam com pólos de ecoturismo credenciados pela Empresa Brasileira de Turismo (Embratur).

Nessa fase, foram selecionadas ainda as cidades com elevada densidade de microempresas ou empresas de pequeno porte formalmente constituídas para que, na segunda etapa, fossem realizadas entrevistas com gestores municipais para identificar a relação dos empreendimentos com a conservação da natureza.

Na terceira etapa da coleta de dados foram entrevistados pessoalmente representantes de 20 municípios que ampliaram a Mata Atlântica, nos dois períodos analisados, com o objetivo de descobrir o que estaria contribuindo para a expansão dos fragmentos florestais.

“O estudo conclui que, mais importante que a associação entre os empreendimentos e a recuperação florestal, o principal motivo do ganho de cobertura vegetal nos municípios é a fiscalização cada vez mais intensa decorrente de uma legislação ambiental rigorosa, que vem sendo elaborada pelos órgãos do governo estadual desde o final da década de 1980”, explica Ehlers.

“Essa legislação, que é respeitada sobretudo nas grandes fazendas, faz com que a floresta não seja desmatada e também com que regiões como leitos de rios e morros não sejam utilizados para o plantio de culturas agrícolas, permitindo a regeneração natural da vegetação dessas áreas”, acrescenta o pesquisador.

Para ler o artigo Empreendedorismo e conservação ambiental no interior de São Paulo, disponível na biblioteca on-line SciELO (Bireme/FAPESP), clique aqui.

ENERGIA: Babaçu e coco da Amazônia abastecem primeiro vôo com biocombustível

O primiero avião comercial a testar biocombustível decolou neste domingo (24) do aeroporto de Heathrow, em Londres, com destino a Amsterdã, na Holanda. O Boeing 747 da companhia Virgin Atlantic voou utilizando bioquerosene feito a partir de óleos de coco e babaçu da Amazônia. O avião, que não possuía passageiros a bordo, teve um de seus quatro motores abastecidos apenas com o novo combustível – o que representa uma mistura de 25% de bioquerosene ao querosene de avião convencional.

A iniciativa faz parte de um projeto que reúne a Boeing, a General Eletric, companhias aéreas e fabricantes de aeronaves na corrida para desenvolver uma alternativa viável ao atual combustível de aviação. A busca ocorre em função do aumento do preço do óleo e também pela responsabilidade cada vez maior atribuída ao setor em relação ao aquecimento global.

A brasileira Tecbio, da qual o professor Expedito Parente (considerado o pai do biodiesel) faz parte, possui parceria com a Boeing e a Nasa desde 2006 para o desenvolvimento de um biocombustível para a aviação. A entidade, no entanto, não se manifesta sobre o assunto devido a um contrato de confidencialidade.

A Virgin acredita que em dez anos as linhas aéreas poderão utilizar a energia de plantas normalmente. “Há dois anos, as pessoas diziam que esse vôo seria impossível, que o bioquerosene congelaria a 30 mil pés de altura. O teste deste domingo foi puramente para provar que os biocombustíveis funcionam na aviação comercial”, afirma o bilionário Richard Branson, que controla a Virgin.

O Boeing 747 pousou no aeroporto de Amsterdã depois de atingir a altitude máxima planejada de 25 mil pés, informou a Virgin, que não forneceu mais detalhes sobre o teste. A Autoridade de Aviação Civil do Reino Unido aprovou o vôo. O avião agora será levado para manutenção e o motor que recebeu bioquerosene será examinado.

O uso de cerca de 25% de biocombustível serviu para reduzir o risco do vôo, uma vez que os demais motores são capazes de fornecer a potência necessária para o avião caso haja qualquer problema. Branson diz que os testes mostraram ser possível voar com até 40% de bioquerosene na mistura.

Solução?
Hoje o combustível representa de 30% a 50% dos custos das companhias aéreas e a aviação contribui com cerca de 2% das emissões globais de dióxido de carbono (CO2). A expectativa do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU é de que esse volume cresça para 3% até 2050.

A Virgin diz que o uso de biocombustível ajuda no corte das emissões de gases causadores do efeito estufa. "Alguns de nós na indústria estamos de fato fazendo algo para reduzir nossas emissões de carbono. Eu não considero que seja só propaganda - é progresso, é de fato reduzir a contribuição da indústria da aviação nas emissões de CO2", afirma Paul Charles, diretor de comunicações corporativas da Virgin.

Ambientalistas, por outro lado, acreditam que a iniciativa do bioquerosene não pode ser vista como uma solução para reduzir as mudanças climáticas, pois a produção de alimentos seria afetada com a utilização de plantações para gerar combustível. "Nós achamos que o vôo de biocombustível da Virgin é mais uma distração das soluções reais para as mudanças climáticas", afirma Kenneth Richter, do grupo ambientalista Friends of the Earth.

Por Sabrina Domingos, CarbonoBrasil, com agências e jornais internacionais
Fonte: CarbonoBrasil

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Política de C & T - Agronegócios: O PAC da Embrapa

Inovação institucional deve consolidar a presença da empresa na África, Europa e América Latina

Claudia Izique

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), criada em 1973 como empresa pública de direito privado, tornou-se um centro de excelência em pesquisa e desenvolvimento (P&D). A empresa, que está completando 35 anos, quer agora transformar esse conhecimento em riqueza. “Estamos diante da oportunidade de implementar parcerias externas e de nos associarmos com o setor privado no Brasil em negócios com enorme potencial de geração de recursos por meio de transferência de tecnologia, royalties de patentes, licenciamento de uso, entre outros”, diz Silvio Crestana, diretor-presidente da Embrapa.

Essa estratégia exigirá, no entanto, uma outra arquitetura institucional e a criação de novas unidades de negócios que consolidem a presença da Embrapa no mercado internacional e fortaleçam a parceria com o setor privado. O modelo de atuação da empresa e seu Plano Diretor para o período 2008-2010 – batizado como PAC da Embrapa, em referência ao Plano de Aceleração do Crescimento de vários setores da economia – já estão prontos e deverão ser anunciados pelo próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva em abril.

A atuação externa da Embrapa iniciou-se em 1997, com um programa de investimentos nos Estados Unidos e na Europa conhecido como laboratórios no exterior (Labex). Também opera na África e, recentemente, começou negociações para firmar parcerias com China, Japão e Coréia.

A presença internacional da Embrapa segue modelos de ação diferentes em cada uma das regiões do planeta. Os Labex, por exemplo, são laboratórios de prospecção e parceria tecnológica com países do hemisfério Norte. O primeiro foi instalado em Maryland, em Washington, em parceria com o Agriculture Research Service (ARS), com o objetivo de acompanhar pesquisas nas áreas de biotecnologia, nanotecnologia, mudanças climáticas, agroenergia e bioenergia. “Precisamos estar antenados nos cenários futuros da tecnologia agrícola”, explica. “Fizemos juntos um mapa do caminho para a produção do etanol, soja, milho e suínos.”

O Labex norte-americano é liderado por cientistas seniores, com grande experiência em pesquisa. O próprio Crestana ocupou esse cargo antes de assumir o comando da empresa, em 2005. Na França, o Labex compartilha a rede de pesquisas de três centros de investigação do pólo de ciência e tecnologia de Agrópolis, em Montpelier, e na Holanda, que trabalha com a Universidade de Wageningen em investigações sobre biologia avançada e genômica.

A relação da Embrapa com os parceiros do hemisfério Norte é de troca. “Temos liderança na agricultura tropical e eles na de clima temperado. Conseguimos criar um modelo de equilíbrio”, justifica. Esse também deverá ser o caráter dos Labex que a Embrapa quer instalar na China, Coréia e Japão. “Nesses países há instituições de pesquisa consolidadas, com pessoal muito qualificado. Dá para ter política de cooperação.”

Agenda triangular
No hemisfério Sul o modelo é distinto. “Aqui a nossa posição é de liderança, já que o Brasil tem hegemonia científica e tecnológica. Não há exatamente troca tecnológica, embora exista alguma cooperação em investigações nas áreas de mudança climática e biodiversidade, entre outras. O interesse na pesquisa é secundário” , compara Crestana. “A relação é de agronegócio ou de cooperação humanitária”, sublinha.

A Embrapa inaugura, em maio, um escritório de negócios tecnológicos na Venezuela, país que importa da Colômbia e dos Estados Unidos 75% do alimento consumido pela população. O governo quer reduzir essa dependência e, em médio prazo, produzir leite, ovos e frango. “Vamos transferir tecnologia de produção de milho, soja e forrageiras, além da nossa experiência em genética”, adianta Crestana.

O compromisso, que envolve parceria com o Instituto Nacional de Investigaciones Agrícolas, foi firmado entre os dias 12 e 13 de dezembro do ano passado, quando Crestana acompanhou o presidente Lula em viagem a Caracas.“O escritório será auto-suficiente: deve se pagar, em médio prazo, e gerar recursos para a Embrapa”, sublinha Crestana.

O escritório da Venezuela integrará a Embrapa Internacional cuja constituição está prevista no Plano Diretor. A expectativa é que ele se transforme no embrião da Embrapa América Latina.

O acordo firmado com Gana, na África, também se pauta por regras de mercado. “Temos pacotes tecnológicos que podem ser transferidos e adaptados às demandas desses países”, ele diz. Nesse país africano a Embrapa desenvolve projetos de uso sustentável de recursos naturais, sistemas produtivos e proteção sanitária de plantas e animais, fruticultura e horticultura tropical, zoneamento agrícola, biotecnologia e troca de material genético, entre outros.

Mas, no caso de Moçambique, Angola e Guiné-Bissau, a atuação da Embrapa tem caráter de “cooperação humanitária” e obedece a uma “agenda triangular”: a capacitação de pessoal ou transferência de tecnologia é financiada por terceiros, como o Banco Mundial (Bid), Banco Interamericano de Desenvolvimento (Bird) e a Fundação Melinda e Bill Gates, entre outros. A Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jaika), por exemplo, bancou o programa de apoio à produção de caju e de leite na Guiné-Bissau.

“A nossa agenda internacional tem grande repercussão na política externa do Brasil”, enfatiza Crestana.

Parceiros privados
Além da Embrapa Internacional, o novo modelo institucional também prevê a criação da Embrapa Participações, que permitirá à empresa atuar como acionista minoritária da Empresa de Propósito Específico (EPE) para pesquisa e desenvolvimento de projetos, por exemplo, na área de bioenergia. “Já propusemos a EPE em lignocelulose para desenvolver tecnologia de segunda geração na produção de etanol. Trata-se de um negócio de R$ 100 milhões. Só falta superar o desafio da gestão do empreendimento”, exemplifica Crestana (ver Pesquisa FAPESP, edição n° 135).

A inovação institucional é uma mudança estratégica para o futuro da empresa. “O Brasil hoje é parceiro global, deixou de ser Jeca Tatu”, diz Crestana. O país tem presença forte no mercado mundial de carne e é “a bola da vez”, como ele diz, na produção de alimentos, energia e fibras. “Tem que exercer essa liderança”, adverte.

Para tanto, é preciso atender às exigências de sustentabilidade social e ambiental demandadas pelo mercado externo e garantir competitividade em matéria de qualidade e preço. “Do ponto de vista tecnológico, o grande desafio é a rastreabilidade dos produtos. Temos que ser capazes de mostrar a origem e o destino do produto e garantir a qualidade de insumos utilizados na produção que devem estar de acordo com especificações”, exemplifica.

O PAC da Embrapa também prevê a revitalização dos sistemas estaduais de pesquisa agropecuária (OEPAs). “Nos últimos 15 anos, o sistema perdeu força porque a Embrapa não tinha fôlego para manter programas de treinamento nem dinheiro para financiar projetos dessas instituições”, justifica Crestana. Algumas dessas instituições foram fechadas e outras estão sucateadas, “à míngua”. As novas perspectivas e os desafios que se colocam para a agropecuária e a agroindústria brasileira vão exigir, no entanto, uma nova rodada de investimentos em pesquisa. “E a Embrapa não será capaz de fazer isso sozinha. Aliás, não cabe a ela fazer sozinha.

O seu modelo original de funcionamento previa a colaboração dos sistemas estaduais”, lembra Crestana. Às organizações estaduais caberia desenvolver pesquisa adaptativa e aplicada. “Não vamos montar uma unidade da Embrapa em Mato Grosso para testar a adaptabilidade de uma soja desenvolvida em Londrina”, diz. Para isso deveria existir parceria com os estados. “Comprometemo-nos a treinar técnicos para a extensão rural e acompanhar o desenvolvimento.”

O esforço de recuperação das OEPAs começou, na verdade, no ano passado, quando a Embrapa conseguiu R$ 11,8 milhões em emendas parlamentares para apoiar essas instituições. “Foi criada uma frente parlamentar para apoiar o sistema”, explica Crestana. O PAC da Embrapa vai destinar R$ 300 milhões para investimentos na infra-estrutura das OEPAs, que também contarão com recursos de um programa especial do PAC da Ciência e Tecnologia. “Somados esses recursos, pode-se afirmar que as organizações estaduais de pesquisa agropecuária terão um volume importante de recursos para fazer pesquisa nos próximos anos.” O projeto prevê a contrapartida dos estados. “Estamos negociando estado por estado”, adianta.

Mais pesquisadores
O PAC da Embrapa também prevê reforço no orçamento e no quadro de pessoal. No ano passado, a empresa já realizou um orçamento recorde de R$ 1,150 bilhão, inferior apenas ao exercício de 1996, quando a empresa contou com um orçamento de R$ 1,4 bilhão, corrigido pelo IGPDI. “Saímos de um patamar de R$ 790 milhões, em 1996, e evoluímos a uma taxa maior do que 10% ao ano, enquanto a economia brasileira crescia uma média de 3%”, compara Crestana. A expectativa neste ano é romper a barreira do R$ 1,4 bilhão e superar a marca de 1996.

A empresa também vai ampliar o quadro de pessoal, principalmente de doutores. Neste ano vai preencher as 300 vagas disponíveis no quadro autorizado de 8.632 vagas e chegar a 2010 com 10.243 empregados, dos quais 2.294 são pesquisadores, a grande maioria com doutorado.

“Vamos contratar mais 752 pesquisadores”, ele adianta. Ele não teme cortes de gastos do governo. “Viajei com o presidente Lula na madrugada do dia em que o Senado Federal derrubou a CPMF. Perguntei ao presidente se isso prejudicaria nosso projeto de modernização da Embrapa e ele garantiu que não. Posteriormente, apresentei o programa de reestruturação da empresa num encontro com o presidente, em que esteve presente a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, e o ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Resende. A informação que temos é de que não haverá prejuí-zos para o nosso projeto.”

O futuro do etanol
A Embrapa Agroenergia entregou ao ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Reinhold Stephanes, um estudo sobre o estado-da-arte e as perspectivas da pesquisa, desenvolvimento e inovação (P,D&I) em etanol nos próximos cinco anos. “Atendemos a uma demanda do governo federal”, explicou Crestana.

Depois de consultar todos os atores relevantes, identificar gargalos e lacunas, conclui-se que o Brasil tem competência em p,d&i em etanol em oito instituições: Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Estadual Paulista (Unesp), Instituto Agronômico (IAC), Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), Canaviallis e Rede Interuniversitária do Desenvolvimento Sucroalcooleiro (Ridesa). “Integradas, essas instituições darão um salto de qualidade nas pesquisas”, analisa Crestana.

Mas há “vazios” tecnológicos. Na área agronômica, por exemplo, é preciso apostar na biomassa. “É possível dobrar a produção de etanol com maior produtividade e expandir a área plantada de cana para outras áreas do país, o que vai exigir novas cultivares.” Mas será necessário produzir mais, com mais sustentabilidade, no que diz respeito ao uso da água, de energia, de dispêndio de CO2, sem perder de vista a questão social. “Temos que conseguir certificar o álcool para exportação.”

Na área da transformação, a saída está na lignocelulose. “Será possível dobrar a produção de etanol por hectare, sem expandir a área plantada”, ele diz.

As perspectivas, segundo Crestana, são motivadoras. Mas precisamos investir R$ 1 bilhão em pesquisa nos próximos cinco anos. A sugestão da Embrapa Agroenergia é que esses recursos sejam formados por um fundo com meios do setor público e privado, cuja governança deveria ser feita através de uma rede de consórcios, nos mesmos moldes do Funcafé, criado após a extinção do Instituto Brasileiro do Café (IBC).

PRESERVAÇÃO: LIista vermelha do Pará

Por Thiago Romero

Agência FAPESP – Cento e oitenta e uma espécies vegetais e animais estão oficialmente ameaçadas de extinção no Pará, sendo 13 delas – sete espécies de peixes, duas de plantas, três de mamíferos e uma de pássaro – consideradas como “criticamente em perigo”.

Os dados estão na Lista de Espécies Ameaçadas do Pará, nomeada Lista Vermelha, cujo lançamento oficial ocorreu na semana passada durante a assinatura de um decreto, pela governadora do Pará, Ana Júlia Carepa, que também oficializou o programa Extinção Zero.

A lista e o programa foram criados por meio de iniciativa conjunta entre a Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema), o Museu Paraense Emílio Goeldi (Mpeg) e a Conservação Internacional (CI). O objetivo do programa é criar, com base nas informações da lista, uma nova agenda ambiental que permita ao governo proteger as espécies ameaçadas.
A agenda será implementada por um comitê gestor e técnico, cujos nomes ainda serão indicados pelo governo do estado, que será responsável pela criação de um plano de preservação das espécies indicadas pela Lista Vermelha.

Em parceria com universidades, instituições científicas, organizações não-governamentais (ONGs), setores produtivos e poder público, a primeira ação do comitê será reconhecer o que os pesquisadores chamam de “Áreas Críticas de Biodiversidade” como regiões prioritárias para conservação.

“A Lista Vermelha do Pará contém, além das características de cada espécie, um mapa de distribuição das espécies associado ao mapa da perda de seus hábitats”, disse Ima Célia Vieira, diretora do Museu Goeldi, à Agência FAPESP.

“Com esse diferencial conseguiremos sobrepor os mapas para identificar essas áreas críticas, a partir do cruzamento de dados georreferenciados da distribuição de cada espécie ameaçada e das áreas alteradas pelo desmatamento”, explicou.
Dentre as 181 espécies ameaçadas da lista estão 91 vertebrados, 37 invertebrados e 53 plantas. Entre elas estão o macaco caiarara (Cebus kaapori) e o cuxiú preto (Chiropotes satanas), além das espécies vegetais pau-rosa (Aniba rosaedora Ducke), ipê-roxo (Tabebuia impetiginosa) e o mogno ( Swietenia macrophylla).

“O próximo passo será aperfeiçoar, por meio de ferramentas de modelagem computacional, o entendimento da distribuição das 13 espécies da Lista Vermelha consideradas como criticamente em perigo nas modelagens anteriores. O trabalho será complementado por medições em campo e, após essa fase, poderemos intensificar as ações governamentais nessas áreas críticas”, disse Ima Célia.
Desmatamento crítico
Segundo a diretora do Museu Goeldi, a maior parte das espécies da Lista Vermelha está nas áreas mais desmatadas do estado, especialmente na região conhecida como Centro de Endemismo Belém, localizado entre o Pará e o Maranhão.

“A Amazônia tem oito grandes centros de endemismo que abrigam espécies únicas, sendo o centro de Belém o mais impactado de todos. Essa é uma região com mais de 150 municípios, cujas áreas críticas começaram a ser identificadas após o lançamento do programa Extinção Zero.
Agora o objetivo é criar novas unidades de conservação de biodiversidade na região, além de fortalecer as ações nas unidades que já existem”, disse.

O Pará tem 55% de seu território dentro de áreas protegidas ou territórios indígenas. Segundo dados divulgados pelo Museu Goeldi, o estado é o campeão em desmatamento na Amazônia brasileira, com 202,9 quilômetros quadrados de áreas desflorestadas, o que equivale a 16% de seu território e a 30% de toda a área já degradada na região amazônica.

A elaboração da Lista Vermelha foi realizada no âmbito do Projeto Biota Pará, coordenado por pesquisadores do Museu Goeldi, e teve início em 2004 com a definição dos critérios e categorias de ameaça a serem adotados na avaliação do estado de conservação das espécies no Pará.

Inicialmente os pesquisadores elaboraram uma lista com 928 espécies candidatas a integrar a lista final. Esse banco de dados foi disponibilizado para consulta pública na internet e a decisão das espécies ameaçadas do estado, finalizada em junho de 2006, seguiu os critérios da União Internacional para Conservação da Natureza: criticamente em perigo, em perigo ou vulnerável.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

ENERGIA: Fórum de parlamentares do G8 + 5 exalta papel positivo dos biocombustíveis

Gustavo Faleiros

Os biocombustíveis andam um tanto mal falados por aí. Nos últimos meses não foram poucos os estudos que contestaram a viabilidade ambiental do etanol e do biodiesel. Apenas para citar o mais recente, paper de David Tilman, ecologista da Universidade de Minnesota, publicado na revista Science neste mês, chegou a afirmar que o uso dos carburantes verdes ajuda a aumentar as emissões de gases estufa e não diminuí-las. Isso porque a competição por terras agrícolas entre combustíveis e alimentos elevaria o desmatamento nos países em desenvolvimento.

Contudo, o fórum de parlamentares entre os países do G8 (os sete mais ricos e Rússia) e as cinco maiores economias emergentes (entre elas Brasil e China) terminado nesta quinta em Brasília serviu como um verdadeiro ato de desagravo aos biocombustíveis. O encontro, marcado para elaborar um documento que será entregue aos governantes do G8 em julho no Japão com propostas de combate à mudança climática, acabou dominado por debates sobre a importância do etanol.

Após muita especulação sobre sua participação no evento, o presidente Lula surgiu poucas horas antes do fim para, na parte improvisada de seu discurso, fazer (mais uma vez) uma defesa ardorosa dos carburantes brasileiros. “Estou convencido de que os biocombustíveis devem estar no centro de um estratégia global de proteção ao meio ambiente”, disse. Rebateu as acusações de que a cana-de-açúcar vai contribuir para o desmatamento da Amazônia e citou números do IBGE para argumentar que a expansão da produção de combustíveis ocorrerá sobre pastagens degradadas.

Após muita especulação sobre sua participação no evento, o presidente Lula surgiu poucas horas antes do fim para, na parte improvisada de seu discurso, fazer (mais uma vez) uma defesa ardorosa dos carburantes brasileiros. “Estou convencido de que os biocombustíveis devem estar no centro de um estratégia global de proteção ao meio ambiente”, disse. Rebateu as acusações de que a cana-de-açúcar vai contribuir para o desmatamento da Amazônia e citou números do IBGE para argumentar que a expansão da produção de combustíveis ocorrerá sobre pastagens degradadas.

Brasil é líder

Segundo o secretário-executivo do Organização de Parlamentares por um Meio Ambiente Equilibrado (Globe International), Adam Mathews, a aprovação de uma declaração sobre biocombustíveis no Fórum do G8+5 foi um reconhecimento da capacidade do Brasil em produzir os carburantes de forma sustentável. “O Brasil demonstrou porquê é líder neste setor”, disse.
O trabalho de convencimento aos estrangeiros de que o País pode produzir etanol sem prejudicar o meio ambiente foi reforçado por uma concorrida palestra do presidente da União da Indústria Canavieira (UNICA), Marcos Jank. Segundo ele, as usinas brasileiras de álcool podem assumir o compromisso de que não vão afetar “biomas sensíveis”, no caso a Amazônia e o Pantanal. O empresário garantiu que toda a expansão da cana-de-açúcar ocorrerá em 50 a 70 milhões de hectares de pastagens degradadas. Isso seria possível com o aumento da média de cabeças de gado por hectare no País de 1/ha para 1,4/ha. “Basicamente o que existe hoje é uma monocultura de pastagens no Brasil”, argumentou.

Algumas delegações, notadamente a da Alemanha, que chegaram à Brasília com bastante receio do lobby pró-biocombustíveis, saíram do Fórum com uma visão positiva sobre a experiência brasileira. Isso porque em comparação com o etanol de milho americano, o álcool brasileiro de cana de açúcar é muito mais eficiente. Enquanto o combustível daqui pode contribuir com uma redução de 80% a 90% de gases estufa em comparação com um barril de petróleo, o etanol dos EUA consegue no máximo abater 30% das emissões.

O deputado alemão Michael Kauch, porta-voz em Política Ambiental do Partido Democrata-Livre disse a O Eco que o Brasil de fato está conseguindo comprovar que sua produção de biocombustíveis é a mais eficiente do planeta. O problema, no entanto, em aprovar uma declaração que eleve o status dos carburantes verdes a salvadores da mudança climática, é a situação em outros países, principalmente na Indonésia, hoje campeã em desmatamento para o plantio e produção de palma de dendê.

Certificação

O coordenador do setor de Desenvolvimento Sustentável do Banco Mundial. Mark Lundell, tem se dedicado ao estudo dos biocombustíveis e acredita que um sistema internacional de certificação seria capaz de evitar que casos de degradação como o da Indonésia sejam replicados. “Não acho que seria o caso de interromper a produção de biocombustíveis, a certificação vai dar conta de resolver estes problemas”, analisa.

Marcos Jank, da UNICA, também aposta na certificação, crê que ela será o melhor meio de criar um mercado internacional de biocombustíveis. No entanto, ele critica artigos científicos e propostas que apenas estão olhando a cadeia de produção e os impactos indiretos dos biocombustíveis. Ou seja, acha que os estudos estão muito focados em questões de desmatamento e não levam em conta o potencial da matéria prima em reduzir as emissões. “Aceitamos discutir a certificação contanto que ela não dê tanto peso às questões de uso da terra e sim à contribuição do combustível às mudanças do clima”, afirmou Jank.

Em seu discurso, Lula afirmou que os biocombustíveis podem ser o “pilar da salvação” dos países em desenvolvimento que dependem da importação de petróleo. Conseguiu angariar opiniões favoráveis. Apenas espera-se que tamanho entusiasmo não esconda as contradições da energia verde.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Gestão ambiental: Gerenciamento sustentável de florestas receberá atenção especial da presidência do G8

O gerenciamento sustentável de florestas será o tema chave durante a presidência japonesa do G8, anunciou o primeiro-ministro japonês, Yasuo Fukuda, durante o Fórum de Mudanças Climáticas, que se encerra hoje em Brasília.

"Enquanto promovemos 'gerenciamento sustentável de florestas', precisamos tentar frear o desmatamento e a degradação florestal. Eu pretendo promover esta discussão com outros países para promover um progresso importante em direção a uma resolução", disse Fukuda na abertura do encontro de legisladores do G8+5.

O Brasil abriga a maior floresta tropical do mundo, porém tem recebido olhares de desconfiança da comunidade internacional por mostrar incapacidade em controlar as queimadas e degradação ambiental da Amazônia.

Durante o Fórum, o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, disse que o comércio ilegal de madeira é a questão crucial do desmatamento vivido hoje no país. O ministro reafirmou que a produção agrícola brasileira não precisa derrubar árvores dentro do bioma amazônico para avançar.

Operação Guardiões da Amazônia
Bem longe do encontro dos legisladores em Brasília, agentes do Ibama e do governo estadual do Pará enfrentaram ontem mais manifestações de pessoas contrárias a fiscalização de madeireiras em Tailândia, na chamada Operação Guardiões da Amazônia. Iniciada na semana passada no município, a operação já multou cinco das dez serrarias já fiscalizadas (entre as 140 da cidade) por terem em estoque madeira sem origem comprovada e por comércio de madeira sem autorização.

A governadora, Ana Júlia Carepa, disse ontem que a operação vai continuar, "doa a quem doer". "Vamos continuar a operação contra o desmatamento ilegal, nem que eu tenha de andar de colete à prova de bala", afirmou durante o lançamento do programa Extinção Zero em Belém. O programa estadual pretende assegurar a preservação e proteção das espécies da flora e da fauna ameaçadas de extinção. "Vamos mostrar que somos capazes de cuidar da nossa biodiversidade e da nossa Amazônia", finalizou Ana Júlia.

O combate à extração ilegal aliado ao gerenciamento sustentável das florestas é uma das saídas para o desmatamento na Amazônia. E, apesar de ainda raros, alguns exemplos de projetos de gerenciamento florestal emergem como modelos de conservação no Brasil. É o caso do gerenciamento da maior área privada de floresta tropical do mundo, da empresa de papel e celulose ORSA.

Segundo reportagem da agência de notícias Reuters, o Grupo Orsa retira apenas 30 metros cúbicos de madeira por hectares a cada 30 anos, a taxa de regeneração natural da floresta. As árvores são derrubadas, transportadas e contabilizadas em um inventário computadorizado.

Na propriedade, de 1,7 milhões de hectares (o equivalente a metade do tamanho da Bélgica), cerca de 80% da floresta está de pé e um terço é gerenciado e certificado pelo Conselho de Administração de Florestas (FSC, na sigla em inglês). "Madeira ilegal mata 30 árvores para conseguir uma. Este projeto protege mais árvores do que extrai", afirmou Ana Yang, do FSC do Brasil.

O FSC, uma entidade observatória da indústria internacional, certifica e inspeciona o projeto a cada seis meses. O corte de madeira começou em 2003.

"Se o governo se esforçasse pelo gerenciamento sustentável de florestas da mesma maneira que o fez pelo desenvolvimento da agricultura nos anos 70 e 80, nós poderíamos preservar muito mais a Amazônia", disse à Reuters o pesquisador da Embrapa, Judson Ferreira.

Em março, o governo selecionará três empresas para gerenciar 96 mil hectares de floresta, a primeira oferta de terras federais. "O gerenciamento florestal é uma ótima alternativa e ORSA está dando um bom exemplo disto, mas queremos fazer as coisas com calma", disse o diretor do Programa Nacional de Florestas do MMA, Tasso Rezende de Azevedo. Azevedo disse à Reuters que a propriedade privada de terras na Amazônia é, no entanto, controversa.

Madeira ilegal versus certificação
Cerca de 80% da madeira extraída da Amazônia tem origem ilegal e a venda de madeira certificada é hoje uma das melhores saídas para o problema. Deste total, 64% vai para o consumo interno, sendo 15% só para o estado de São Paulo e 27% para o Sul e os outros estados do Sudeste, segundo dados do Greenpeace.

O próprio governo é responsável pelo financiamento da extração ilegal, uma vez que 1/3 do total brasileiro é consumido pelo setor público, em obras e no consumo direto. Para tentar reduzir estes números, o Greenpeace lançou o programa Cidade Amiga da Amazônia que incentiva municípios e consumidores a adquirirem madeira de origem legal e sustentável. "As prefeituras adotam critérios que impedem o consumo de madeira ilegal", explica o coordenador do programa, MárcioAstrini.

O governo do estado de São Paulo, a capital e outras 23 cidades paulistas, Porto Alegre e quatro cidades gaúchas, Recife, Olinda, Fortaleza, Salvador, Manaus e Apucarana (PR) participam do programa. Porto Alegre terá em março uma obra piloto com madeira adquirida pelo programa. "A compra de madeira ilegal por parte do governo contribui muito mais do que permitir 20% de desmatamento", afirma Astrini.

Mudanças Climáticas no Fórum do Itamaraty
No Fórum, que reúne países do G8 e do bloco de cinco países de economia emergente, o primeiro-ministro japonês enfatizou também a importância de combater as mudanças climáticas e lembrou que o Japão recentemente lançou o programa "Promoção do Resfriamento da Terra", o qual pretende fortalecer a imagem de país como líder em eficiência energética e inclui o emprego de 10 bilhões de dólares para ajudar os países em desenvolvimento no esforço de mitigação e adaptação.

É a primeira vez que a reunião é realizada em um país de economia emergente. Na avaliação do porta-voz do Banco Mundial para a América Latina e Caribe, Sergio Jellinek, isto se deve ao papel do Brasil no cenário mundial como "provedor de soluções para a questão das mudanças climáticas", em referência à matriz energética limpa e aos investimentos brasileiros em biocombustíveis.
Paula Scheidt, CarbonoBrasil

Carbono: Prefeito de Londres recomenda população a trocar água mineral por de torneira

da Efe, em Londres

O prefeito de Londres, Ken Livingstone, lançou na quarta-feira (20) uma campanha destinada a promover o consumo de água de torneira frente à engarrafada em restaurantes, cafés e outros estabelecimentos.

"A mensagem é muito simples. Não tenham vergonha de pedir água de torneira no restaurante", disse o político trabalhista. Na opinião de Livingstone, dessa forma os londrinos economizarão dinheiro e ajudarão a salvar o planeta.

"Bebendo menos água engarrafada, reduziremos as emissões de gases procedentes da produção e do transporte, e contribuiremos para resolver o problema do que fazer com as garrafas usadas", afirmou.

Segundo um estudo, um copo de água de torneira em Londres "gera" o equivalente a 0,3 grama de CO2, enquanto um copo de água mineral das marcas Volvic ou Evian "libera" 185 gramas de gás carbônico na atmosfera.

Já uma pesquisa do Conselho Nacional de Consumidores revelou que muitas pessoas não pedem água de torneira em restaurante porque sentem vergonha.

David Owen, executivo-chefe da empresa Thames Water, responsável pelo fornecimento de água potável à capital britânica, afirmou que "Londres tem provavelmente a melhor água de torneira do mundo".

O diretor-executivo da ONG Friends of the Earth, Tony Jupiter, elogiou a campanha e disse que "é uma loucura do ponto de vista ambiental transportar garrafas de água mineral por milhares de quilômetros de distância".

Energia: Etanol de mandioca doce

Por Dinorah Ereno

Pesquisa FAPESP – Durante uma viagem de coleta de plantas na Amazônia o pesquisador Luiz Joaquim Castelo Branco Carvalho, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, de Brasília, conheceu uma variedade de mandioca que em vez de amido tem grande quantidade de açúcares na raiz.

Esses açúcares são, em sua maior parte, glicose, que é o substrato utilizado no processo de fermentação para a produção do etanol. A variedade descoberta pelo pesquisador é na realidade uma mutação genética, guardada e usada pelos índios brasileiros antes mesmo de os portugueses chegarem ao Brasil, para obtenção de bebida alcoólica. “Eles usavam a bebida, chamada caxirim, nas cerimônias religiosas e nas celebrações”, diz o pesquisador.

A planta mutante, após um processo tradicional de seleção de variedades e cruzamento com plantas adaptadas a algumas regiões escolhidas para futuros plantios, resultou em uma variedade que dispensa o processo de hidrólise do amido da mandioca para transformação em açúcar e conversão em álcoois, inclusive o carburante para o combustível. “A eliminação da hidrólise do amido reduz em torno de 30% o consumo de energia no processo de produção de etanol de mandioca”, diz Carvalho.

Da variedade, chamada de mandioca açucarada, a raiz é colhida, moída, prensada e o caldo sai pronto para ser usado no processo de produção do álcool, o que a diferencia das outras matérias-primas utilizadas com a mesma finalidade.

“Os substratos que existem no reino vegetal ou são sacarose, da cana, da beterraba e do sorgo sacarino, por exemplo, ou amido, do milho, de raiz de mandioca, grãos de arroz e grãos de sorgo. Também podemos fazer etanol de bagaço da cana, de gramíneas e resíduos de lavouras”, diz Carvalho.

A proposta de produzir álcool a partir da mandioca açucarada não significa concorrência com o etanol de cana-de-açúcar, mas sim a possibilidade de ocupar outros nichos agrícolas, como a Amazônia, o Nordeste e o Centro-Oeste. Clique aqui para ler o texto completo na edição de fevereiro de Pesquisa FAPESP.

Desenvolvimento insustentável: Pantanal pressionado

Paraíso ecológico e morada de inúmeras espécies - muitas delas em extinção, como arara-azul e a ariranha - o Pantanal poderá desaparecer completamente em pouco mais de 45 anos, se o desmatamento de sua vegetação original continuar no mesmo ritmo de hoje. Isso é o que mostra um estudo divulgado este mês pela Fundação Getúlio Vargas sobre os impactos ambientais provocados pelo Complexo Minero-Siderurgico de Mato Grosso do Sul (CMS-MS) e a crescente demanda por carvão vegetal no Estado.

Realizado pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV a pedido da ONG Conservation International (CI -Brasil), o estudo traz um perfil minucioso do crescimento da mineração no MS e o conjunto de atividades produtivas relacionadas à operação do Complexo, que surgiu em 2006 como um novo modelo de desenvolvimento econômico ao estado, até então alicerçado no binômio soja –pecuária.

Segundo o estudo, com a concretização de todos os empreendimentos previstos para o CMS-MS, a produção de minério de ferro em Corumbá terá um incremento significativo nos próximos anos, passando dos 6,7 milhões de toneladas produzidas atualmente, para 23 milhões de toneladas, a partir de 2013. Além do minério de ferro, o estudo também faz a prospecção de outros insumos, entre eles o aço. Hoje, são produzidas cerca de 56 mil toneladas do produto, com participação inicial apenas da EBX/MMX, do empresário Eike Batista. A partir de 2009, quando a empresa começar a operar com capacidade plena, a produção atingirá cerca de 450 mil toneladas por ano.

Para avaliar os impactos provocados por este incremento na produção do Complexo, a FGV buscou fazer uma operação aparentemente simples: relacionar o aumento da produção com o crescimento da demanda por carvão vegetal e a oferta de florestas plantadas disponíveis para corte. O resultado desta equação, no entanto, não é nada animador.

Segundo André Carvalho, um dos autores do estudo, somente no primeiro ano, o Complexo demandaria 9.000 hectares de florestas. No entanto, apenas cerca de 5 mil hectares estão prontos para corte, o que significa que os 4 mil hectares restantes provavelmente viriam de áreas de vegetação nativa. Se considerado que a produtividade das áreas plantadas é cerca de dez vezes maior do que das áreas nativas, essa conta dá um salto: de acordo o estudo, a estimativa é que, atualmente, a pressão seja sobre 40 mil hectares de áreas nativas do Pantanal.

Em 2015, quando a demanda de carvão do CMS-MS for de 2,4 milhões de toneladas, serão necessários 56 mil hectares de florestas plantadas em ponto de corte. Como o ciclo de vida do eucalipto é de sete anos, a área total de matéria-prima precisaria ser de 392 mil hectares até lá, o que parece estar longe de acontecer. Atualmente, o estado do MS possui cerca de 148 mil hectares de florestas plantadas – já foram quase 500 mil ha, na década de 1970. Desse total, cerca de 80 mil hectares são voltados ao consumo da Votorantim Celulose e Papel. Do restante, parte é consumida pro empresas processadoras de soja, serrarias, fábricas de chapas e compensados. Isso significa que, hoje, a área plantada disponível para atender a demanda das siderúrgicas é de apenas 30 mil hectares, aproximadamente.

Déficit gritante

Não é preciso ter uma calculadora à mão para perceber o enorme déficit entre oferta de carvão vegetal de florestas plantadas e a demanda do CMS-MT. Então, de onde ele vem? A resposta encontra margem na ilegalidade e extrapola os limites geográficos do país. Além dos remanescentes de cerrado e áreas do entorno do Pantanal, contrabandistas buscam no Paraguai e Bolívia a madeira para servir aos fornos das siderúrgicas. Segundo o levantamento, só o Paraguai, por exemplo, perde anualmente cerca de U$ 80 milhões em carvão vegetal contrabandeado para o Brasil.

A ilegalidade é favorecida por um fator já conhecido de todos: a falta de fiscalização e o total desaparelhamento do Estado para realização de medidas simples de controle. No Ibama de Corumbá, por exemplo, há apenas três servidores destinados a esse trabalho. "Hoje a ação de fiscalização do Ibama é mais focada na auditoria. Não abandonamos a fiscalização in loco, mas precisamos atacar em outras frentes. Gostaríamos de ter uns 20 servidores para fazer esse trabalho", diz Ricardo Pinheiro de Lima, chefe do escritório regional do Ibama de Corumbá.

Porém, nem mesmo o efetivo desejado pelo Ibama do Mato Grosso do Sul será suficiente, se considerados os números do estudo da FGV. Em 2005, a estimativa era que existiam cerca de 5 mil empresas que produziam, armazenavam e/ou transportavam carvão vegetal no estado. Destas, apenas 343 tentaram se legalizar por meio do pedido de licenciamento.

Ainda segundo o chefe do Ibama em Corumbá, mesmo o CMS-MT estando no início de suas atividades, já é possível identificar o aumento no número de caminhões de carvão que trafegam nas estradas do Estado. Segundo ele, o fluxo chega a ser de um caminhão por hora. "[O volume de carga transportada] ficou gigantesco e o que mais se transporta no Mato Grosso do Sul é o carvão. Só isso já deve significar que pode estar acontecendo ilícitos ambientais".

Quem concorda com Lima é Luiz Benatti, analista do órgão ambiental em Campo Grande. "O Ibama se enfraqueceu, principalmente depois da divisão [em Ibama e ICMBio]. O efetivo é pequeno e os funcionários antigos são pouco qualificados. No estado todo não tem nem 20 fiscais. Seria necessário que, imediatamente, se abrisse um novo concurso para a contratação de mais gente", diz.

Além de tais fragilidades, Benatti ainda destaca que o Sistema DOF (Documento de Origem Florestal) não tem se mostrado tão eficiente quanto se esperava. "O DOF é interessante, mais está muito frágil, deficiente na parte de auditoria. Isso sem falar que a Polícia Ambiental do Estado e a Polícia Rodoviária Federal estão fora do sistema, porque não possuem nem uma simples senha para conferência", ressalta. Vale lembrar que, na última semana, foi identificado o primeiro caso de falsificação de DOF no país, como adiantou O Eco. E justamente na região de Corumbá.

Na cadeia da mineração e siderurgia do MS, outros biomas sofrem os impactos do crescimento produtivo, além das florestas nativas em torno do Pantanal. A Hidrovia Paraguai-Paraná é um deles. Segundo o estudo, atualmente cerca de 500 comboios circulam anualmente por lá. Com o incremento do CMS-MS, é esperado que o rio receba de 43 a 51 comboios a mais por mês, a partir de 2013. "Dentre as conseqüências já percebidas do aumento no tráfego em trechos da Hidrovia Paraguai-Paraná estão a destruição de matas ciliares e a intensificação do processo erosivo das margens dos rios", diz o estudo.

Também estima-se que, entre 2008 e 2017, a quantidade de CO² lançado na atmosfera pela crescente produção de aço passe de 95 mil toneladas para cerca de 7,5 milhões de toneladas, com cálculos baseados nas alíquotas do International Iron na Steel Institute (IISI).

Se considerados outros impactos que acompanham a atividade mineradora do CMS-MS, a lista parece não ter fim. Entre eles estão as alterações da paisagem e destruição dos habitats naturais para remoção do minério e disposição dos rejeitos, emissões de material particulado durante o processo de manipulação do minério, modificação do regime hídrico devido à captação de água, contaminação da água superficial e subterrânea por drenagens ácidas, descarte de esgoto sanitário das instalações da mina e reconstituição inadequada da área minerada depois do encerramento das atividades.

Grandes inocentes

Ao contrário do que se possa imaginar, não são só as empresas vaga-lume – aquelas de menor porte que abrem suas portas somente quando o mercado está aquecido – que se abastecem de carvão vegetal ilegal. A MMX, que hoje tem a maior operação de ferro-gusa da região, foi multada em 1 milhão de reais em dezembro passado por ter comprado carvão de uma carvoaria sem autorização para funcionar e supostamente localizada em área indígena, a Kadweu, pertencente ao município de Corumbá. Na semana passada, mais uma vez Eike Batista levou multa. Desta vez de 3 milhões de reais, por ter quebrado os termos de sua Licença de Operação. Pela Licença, a mineradora não poderia consumir carvão vegetal proveniente de cidades limítrofes do Pantanal, mas, na última semana, o Ibama identificou que uma de suas cargas vinha de Bonito.

Mesmo com provas concretas de irregularidades, a empresa continua defendendo sua inocência. Procurada, afirmou em nota: " A MMX reforça seu compromisso com o meio ambiente e reitera que a companhia não utiliza carvão de origem irregular ou oriundo do Pantanal, a menos que tenha a concessão dos Órgãos Ambientais. A empresa só efetua a compra de carvão vegetal ou outros subprodutos florestais que detenham o DOF no caso de fornecedores brasileiros, ou a certificação equivalente, no caso de fornecedores provenientes de outros países". Sobre a última multa, a empresa disse que só irá se pronunciar após ser notificada.

Já a Rio Tinto Brasil - que junto com a MMX e a Urucum Mineração, controlada Companhia Vale do Rio Doce, formam a parte majoritária do Complexo - busca se redimir de qualquer culpa que venha ter no desmatamento do Pantanal afirmando que o carvão que usa é de origem mineral. "A Rio Tinto esclarece que não faz parte do complexo minero-siderúrgico citado no estudo da Conservação Internacional e da FGV. Atualmente, a empresa mantém uma mina de minério de ferro em Corumbá, com produção de dois milhões de toneladas/ano. Possui ainda um projeto de expandir a produção dessa mina para 15 milhões de toneladas até 2014, com uma primeira fase de crescimento de 7,5 millhões de toneladas/ano em 2010, agregando-a a uma planta de beneficiamento de minério, que utilizará carvão mineral importado e não carvão vegetal", disse também por meio de nota.

Para André Carvalho, o discurso da Rio Tinto é superficial e serve somente aos interesses da empresa. "Eles já vêm de um histórico de relacionamento com ONGs e não seriam loucos de dizer que vão usar carvão vegetal. Esse discurso também ajuda para que o processo de licenciamento seja simplificado, mas eu preferia que tivessem um programa em que nos primeiros anos fosse usado o carvão mineral e depois o carvão vegetal de florestas plantadas do que ter esse discurso em que não podemos saber o que eles realmente planejam", diz.

Apesar de tantos indícios de que o crescimento do CMS-MS será uma tragédia em termos ambientais, o secretário-adjunto de Meio Ambiente, Cidades, Planejamento e Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do Sul, Mário Monteiro, disse não acreditar que a busca de carvão para as siderúrgicas vá pressionar o Pantanal. "Existe todo um cuidado com relação ao Pantanal e o Estado não fornece autorizações para novos desmatamentos em alguns municípios", afirmou, em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo.

Segundo Monteiro, o Estado está licenciando diversas áreas para atender a demanda de Corumbá. "Posso dizer que a área plantada é significativa". No entanto, o secretário alegou não ter dados específicos à mão. Para o diretor de política ambiental do CI Brasil, Paulo Gustavo Prado, a declaração de Monteiro é totalmente descabida. "O Estado não tem o controle, não, e a prova disso é que a mata nativa está muito descaracterizada", afirma.

Segundo o autor do estudo, seria equivocado dizer que o Complexo Minero-Siderurgico de MS não é interessante economicamente para o Estado. No entanto, é justamente o governo estadual que deve criar a infra-estrutura para que ele seja viável, econômica e ecologicamente falando. "O papel do Estado é tão fundamental para que o Complexo funcione, que é mais importante nessa história apontar suas falhas. Hoje, ele é omisso e não está preparado. Tem uma série de coisas simples que não estão sendo feitas", defende Carvalho.

Muitas são as medidas sugeridas pelo documento da FGV para que o Complexo sul-matogrossense seja viável e interessante. Entre elas estão: a organização e indução de um arranjo produtivo que potencialize os possíveis impactos positivos que podem resultar da implantação do CMS-MS; a realização de uma Avaliação Ambiental Estratégica que inclua áreas vizinhas na Bolívia e Paraguai; o incentivo à implantação de uma cadeia produtiva de plantio florestal em áreas degradadas; a definição de áreas a serem conservadas ou recuperadas; a viabilização do arranjo logístico necessário ao transporte até Corumbá do carvão vegetal produzido fora da Bacia do Alto Rio Paraguai ou mesmo no eixo Campo Grande – Três Lagoas; a criação de um instituto de florestas que planeje e execute a política florestal adequada às demandas percebidas no MS, entre outras.

Como parece que o governo estadual do MS está longe de começar a se mexer, o drama vivido hoje pelo Pantanal tende mesmo a virar uma tragédia. "A operação como está hoje tem impacto devastador no Pantanal e no seu entorno. As iniciativas do Estado são irrisórias e a associação do CMS-MS com desenvolvimento sustentável é fictício. O complexo não só será um desastre, como hoje já é um desastre. Não estamos falando em cenário futuro, estamos falando de cenário atual", defende Carvalho.

[cristiane@oeco.com.br]

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Ecologia: Semeadores de florestas

( Ao lado: Sementes da esperança: frutos de açoita-cavalo, árvore usada para trazer e reinstalar a sombra )

Com apoio de centros de pesquisa e pressão do poder público, fazendeiros e prefeituras reconstroem matas perdidas

Carlos Fioravanti

Uma faixa generosa de Mata Atlântica às margens de um reservatório de água em Iracemápolis, interior paulista, conta um pouco dos caminhos e descaminhos da aventura de reconstruir florestas. Plantações de cana-de-açúcar de uma usina de açúcar e álcool chegavam a poucos passos da represa até 1985, quando uma forte seca mostrou quão intenso havia sido o assoreamento: havia bem menos água do que o esperado na represa quase toda coberta de terra. O prefeito e os vereadores descobriram então que as bordas da represa não deveriam ter sido ocupadas, em razão de uma lei de duas décadas antes. Enfrentaram a usina, retomaram as terras e trataram de recompor a mata para evitar que faltasse água outra vez. Hoje os moradores pescam na represa, fazem piqueniques e passeiam à sombra dos galhos emaranhados de jequitibás, cabreúvas e pau-marfim de oito, dez metros de altura. A entrada da mata é uma espécie de jardim com mangueiras, goiabeiras, orquídeas e bromélias que eles próprios trouxeram.

A reconstrução da vegetação natural seguiu um planejamento rígido, que fixava os pontos em que árvores de 120 espécies deveriam ser plantadas e tentava reproduzir a estrutura de uma mata às margens de um rio próximo. “Hoje não faríamos assim”, reconhece o biólogo Ricardo Ribeiro Rodrigues, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), uma das instituições que participaram da restauração da mata, entre 1988 e 1992. Em 2003 um tornado derrubou as árvores mais altas e os conceitos que fundamentaram o esforço de construir uma floresta que copiava outra. “Não precisamos predefinir a estrutura final das florestas, mas restaurar os processos biológicos que levam à construção de uma floresta”, conta Rodrigues. Anos antes ele e sua equipe tentaram refazer uma mata de brejo sem drenar o terreno antes. Quase todas as mil mudas que haviam sido plantadas morreram afogadas.

A persistência driblou as desilusões e apressou a maturação de uma abordagem que ainda valoriza o planejamento, mas agora aceita incertezas e define sem o rigor excessivo de antes o que, como e onde plantar. A metodologia que nasceu daí fincou raízes Brasil afora e ganhou credibilidade a ponto de ser uma das referências analisadas para a formulação do Pacto de Restauração da Mata Atlântica, elaborado por um conjunto de organizações não-governamentais e apresentado em novembro de 2007 em Vitória, Espírito Santo.

Os relatórios de trabalho desse grupo da Esalq descrevem restaurações de matas em terras de empresas de papel e celulose no Rio Grande do Sul, Bahia e Paraná, em fazendas de cana-de-açúcar em São Paulo, de café em Minas, de soja no Pará e de pecuária em São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Em 15 anos as equipes do Laboratório de Ecologia e Restauração Florestal da Esalq restauraram 3.500 hectares (1 hectare equivale a 10 mil metros quadrados) de matas ciliares (às margens de rios), uma área equivalente a uma vez e meia o território de Israel, mas ainda tímida em meio às vastidões de propriedades 400 vezes mais extensas.

Biólogos, agrônomos e engenheiros florestais desse grupo agem em conjunto com organizações não-governamentais e com representantes do poder público, em especial promotores, que pressionam os proprietários para que cumpram a lei. Por lei, qualquer proprietário rural deve manter matas ciliares com no mínimo 30 metros de largura, chamadas áreas de proteção permanente, essenciais para evitar que os rios sequem e as margens desmoronem, e 20% (ou até 80% em alguns estados na Região Norte) da propriedade com vegetação nativa – as reservas legais. “É lei”, lembra Sérgio Gandolfi, professor da Esalq, “mas os agricultores não querem perder área de plantio, principalmente as mais férteis, nas margens dos rios”.

Como lei é lei, o promotor público Daniel José de Angelis sobrevoa duas vezes por ano os 22 municípios da bacia hidrográfica do rio Pardo. Depois, em sua sala nos fóruns de Ribeirão Preto e de São Joaquim da Barra, examina fotos aéreas e mapas das propriedades rurais antes de chamar para uma conversa os responsáveis pelas plantações ou pastagens que chegaram aonde não deveriam. “Estou satisfeito com os resultados”, conta Angelis, que tem motivado os proprietários rurais ao lhes mostrar que a reconstrução da vegetação natural não é impossível, cara ou demorada como imaginavam. Por conhecer o trabalho do grupo da USP, Angelis pode apresentar soluções, que facilitam os acordos com os fazendeiros, e não só exigir o cumprimento da lei.

A motivação dos proprietários de terras não é filha do medo da lei ou do amor pela natureza, mas da necessidade de certificação ambiental, indispensável para vender em outros países, e do interesse em manter livre o caminho do cofre. “Antes de aprovar empréstimos”, comenta Angelis, “os bancos exigem que as empresas não tenham pendências com o Ministério Público”. Outra motivação é a perspectiva de ganhos econômicos plantando árvores e vendendo madeira para lenha, carpintaria e móveis depois de 30 ou 40 anos. Em meio a iniciativas predominantemente de empresas que anunciam planos de combater o aquecimento global plantando milhões de árvores, sobressaem as de prefeituras como a de Potim, que começou há dez anos a refazer as margens dos rios do município e no ano passado saiu do silêncio ao integrar o livro BenchMais: As 85 melhores práticas em gestão ambiental do Brasil, organizado por Adalberto Marcondes, Marilena Lavorato e Rogerio Ruschel.

Vender sementes de árvores empregadas na restauração de florestas também pode ser um bom negócio. Um quilograma de semente pode custar até R$ 1.000, dependendo do tamanho da semente e da dificuldade de coleta, conta o agrônomo André Gustavo Nave. Durante o doutorado ele estudou as estratégias de recuperação de matas em Capão Bonito e verificou que muitos moradores da zona rural ganhavam mais vendendo sementes do que plantando tomates. “Quem coleta sementes não vai deixar as matas acabarem”, confia.

Tucanos e sabiás - E assim tapetes verde-escuros de mata fechada começam a se espreguiçar acima dos mares de cana e de soja. “Há seis anos a cana chegava até aqui”, conta Edson Pinto de Azevedo, apontando as margens de um ribeirão que corta uma das 45 fazendas da Usina Vale do Rosário, em Morro Agudo, perto de Ribeirão Preto. Ex-fiscal dos colhedores de cana, hoje é um dos que cuidam das mudas e das árvores já com 2 metros que se adaptam ao sol antes de seguirem aos lugares definitivos. Filho de sertanejo, Azevedo nunca tinha plantado uma árvore nem visto tucano, que agora às vezes aparece por lá – macacos, sabiás e jibóias também. “Tendo mata, volta tudo.”

Ou quase tudo. Alexander Lees e Carlos Peres, da Universidade de East Anglia, Inglaterra, estudaram a riqueza e a composição de espécies de aves e mamíferos em 32 trechos de remanescentes de mata ciliar (24 conectados e 8 isolados) e 5 trechos de matas ribeirinhas dentro de grandes áreas-controle de floresta contínua em Alta Floresta, Mato Grosso. Nesse trabalho, a ser publicado na Conservation Biology, eles verificaram que trechos estreitos (com menos de 20 metros de largura) ou desconectados de fragmentos florestais retiveram poucas espécies de animais, enquanto os largos, principalmente aqueles em bom estado de preservação, abrigaram todo o conjunto de 365 espécies de aves e 28 de mamíferos da região. Além de enfatizarem o valor de áreas extensas de remanescentes de matas ciliares para manter a biodiverdade e os cursos d’água, Lees e Peres recomendam o alargamento para até 200 metros da faixa mínima de floresta a ser mantida em cada lado dos rios e ressaltam: restringir o acesso do gado e o cultivo agrícola nas bordas dos rios permitiria a regeneração da vegetação e facilitaria a restauração da conectividade.

O trabalho de transformar um descampado ressecado em um oásis começa com o mapeamento e o isolamento do terreno a ser repovoado, de acordo com a atual abordagem desse grupo da USP. A etapa seguinte é a identificação dos tipos de floresta e das árvores nativas, próprias da região, que sobrevivem nos fragmentos de mata próximos e vão fornecer as sementes. Produzidas em viveiros, as mudas que brotam dessas sementes ganham um lugar ao sol, na área a ser refeita, em duas linhas paralelas e intercaladas, perpendiculares ao rio, a 2 metros uma da outra, com 3 metros de distância entre cada muda.

Uma das linhas, a de preenchimento, abriga de 15 a 20 espécies de crescimento rápido (alguns metros por ano) e copas que fazem muita sombra, mas morrem em cinco ou dez anos, como capixingui, mutambo e monjoleiro. Elas vão produzir a sombra que controla o capim dos terrenos abandonados, formar a estrutura inicial da floresta e proteger as plantas da segunda linha, a de diversidade. Nessa linha, com um número de espécies de três a quatro vezes maior, enfileiram-se árvores um tanto preguiçosas, que crescem centímetros por ano, mas guardarão longas histórias ao longo de 80 a 100 anos de vida, como jatobá, ipê, jenipapo e jequitibá. Nessa linha estão também as espécies como a imbaúba, que crescem rapidamente e não produzem muita sombra, mas atraem animais que transportam pólen e sementes, além de acelerarem o funcionamento da floresta quando morrem e abrem clareiras. Em dois ou três anos essa organização inicial desaparece entre árvores já encorpadas que se misturam e cobrem o chão de sombra e umidade.

“Ajudamos a mudar alguns conceitos de ecologia, de conservação e de restauração de florestas”, observa Gandolfi. Segundo ele, nos últimos 20 anos os especialistas dessa área deixaram de olhar apenas para os remanescentes isolados de vegetação nativa para observar a paisagem e a interação entre ambientes como os pastos e as cidades com as manchas de matas nativas. Distúrbios naturais como os tornados começaram a ser vistos com naturalidade, por regularem a estrutura e a composição da vegetação. “Qualquer vegetação é um mosaico de manchas que se reorganizam em conseqüência de distúrbios de origem natural ou humana”, diz Gandolfi. “Não há mais uma situação única de equilíbrio.”

Empreendedores - Nessa área, porém, os resultados só podem ser conferidos a longo prazo – mesmo em São Paulo há matas restauradas ainda mais antigas, como a da Usina Ester, em Cos-mópolis, iniciada há 50 anos por José Carlos Bolinger, pesquisador do Instituto Florestal, ou a de Assis, também do Florestal, com 35 anos, ambas com uma diversidade de espécies muito maior que a inicial. Evidentemente há outras abordagens para trazer a sombra de volta à terra seca. O grupo de Ademir Reis e Fernando Bechara na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) prefere dar mais espaço para o imprevisível. Eles adotam o conceito de nucleação – poleiros artificiais e refúgios de galhos e pedras dispersos pela área a ser refeita – para atrair animais e restabelecer processos biológicos como decomposição e dispersão de sementes.

Não será por falta de propostas que as florestas brasileiras deixarão de crescer outra vez. Tão cedo provavelmente não haverá consenso sobre qual o melhor método, mas os especialistas concordam hoje em dois pontos: o uso de espécies nativas, já que o risco de as exóticas morrerem logo é alto, e da maior diversidade possível de espécies. Antigos problemas parecem resolvidos. Anos atrás Ludmila Pugliese de Siqueira e Carlos Alberto Mesquita, biólogos do Instituto BioAtlântica, saíram a campo para identificar e estimular as iniciativas de recuperação de matas nativas no Espírito Santo e na Bahia. Identificaram 65 áreas de recomposição florestal em oito propriedades e verificaram que havia muita dúvida sobre o que e como plantar: a maioria das 5 mil árvores plantadas era de espécies que crescem rápido, mas vivem pouco.

Mesmo com pouca ou nenhuma orientação técnica e com uma perda grande de mudas, plantadas aleatoriamente, “esses empreendedores e suas famílias têm produzido resultados dignos de admiração”, reconhecem Ludmila e Mesquita no livro Meu pé de Mata Atlântica, lançado no ano passado. Michel Frey, engenheiro e ambientalista francês proprietário de um sítio em Conceição do Castelo, no Espírito Santo, plantara 300 mil árvores: “As mais velhas estão com 15 anos de idade e formam uma mata que dá gosto de ver”, relatou. “Quando começamos, havia alguns jacus nos arredores. Agora se multiplicaram tanto que, às vezes, dá para contar mais de cem em volta da casa.” Mas nem tudo são pássaros: em 2001, por causa de uma seca intensa, perdeu um terço de todas as mudas que havia plantado. Frey morreu em 2006, mas antes criou um instituto que comprou mais terras e hoje protege com florestas as nascentes de um ribeirão que deságua em um rio que vai alimentar o Itapemirim, um dos principais do Espírito Santo.

Energia: Batido recorde mundial de eficiência na conversão energia solar-eletricidade

Ao lado, sistema parabólico registra nova recorde mundial na conversão de energia solar em eletricidade, alcançando 31,25%.[Imagem: Randy Montoya]

Engenheiros do laboratório Sandia, nos Estados Unidos, bateram um novo recorde mundial na eficiência da conversão de energia solar para eletricidade fornecida diretamente à rede de distribuição. A eficiência do sistema alcançou 31,25%.

Gerando eletricidade com calor

O recorde foi alcançado no prato número 3 da estação geradora que está sendo construída no estado do Novo México. A energia solar é capturada na forma de calor, que movimenta um motor Stirling para a geração da eletricidade. Conheça o projeto completo na reportagem Sistema parabólico utiliza espelhos na geração de energia solar.

Eficiência na conversão
A eficiência da conversão energia solar-energia elétrica é calculada medindo-se a energia líquida enviada para a rede de distribuição e dividindo-a pela energia solar que atinge os espelhos parabólicos. O recorde anterior havia sido estabelecido em 1984, e era de 29,4%.

"Ganhar dois pontos inteiros de eficiência de conversão neste tipo de sistema é fenomenal," afirmou Bruce Osborn, presidente da Stirling Energy. "Este é um avanço significativo que coloca nosso sistema parabólico-motor bem acima da capacidade de qualquer outro coletor parabólico-solar e um passo mais próximo de comercializarmos um sistema economicamente viável."
Motor Stirling
Os pratos solares geram eletricidade focalizando os raios solares em um receptor, que transmite o calor para um motor Stirling. O motor consiste em um sistema selado cheio de hidrogênio. À medida em que o gás aquece e resfria sua pressão aumenta e diminui. A mudança na pressão movimenta os pistões no interior do motor, produzindo energia mecânica que, por sua vez, faz girar um gerador que produz a eletricidade.

Qualidade dos espelhos
Segundo os engenheiros do Laboratório Sandia, o principal responsável pelo novo recorde foi o avanço alcançado na produção dos espelhos parabólicos. Os pratos são feitos com um vidro com baixo teor de ferro, recobertos por uma película de prata. Os protótipos anteriores conseguiam refletir 91% da luz incidente sobre eles. O prato número 3, com seus novos espelhos, atinge uma reflexibilidade de 94%.

O feixe de calor que entra no coletor agora mede apenas sete polegadas de diâmetro (17,78 centímetros) graças à maior eficiência dos espelhos. Esse feixe mais concentrado também é responsável por um maior rendimento do motor Stirling.

Fonte: Site Inovação Tecnológica.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Mudanças climáticas: Contramão climática

Influência de raios cósmicos em fenômenos atmosféricos causará resfriamento global nos próximos anos, diz o físico Yuri Stozhkov. Mas, segundo ele, não há motivo para diminuir o esforço pela mitigação das emissões de carbono (Ilustração: Nasa)

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – A partir de estudos sobre o papel dos raios cósmicos nos fenômenos atmosféricos e nas variações climáticas, um grupo internacional de cientistas passou a defender a tese de que o mundo passará, nos próximos anos, por um processo de resfriamento global, contradizendo frontalmente as conclusões do Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês).

Um dos defensores da tese, o físico Yuri Stozhkov, do Instituto de Física Lebedev, em Moscou, Rússia, espera que suas idéias sejam combatidas intensamente nos próximos anos. Mas, ao mesmo tempo, afirma que elas não são motivo para deixar de lado o esforço pela diminuição das emissões de carbono.

Stozhkov está no Brasil, onde participa da Escola Latino-Americana 2008 do Ano Heliofísico Internacional (AHI), realizada na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo. Há dez anos o cientista está envolvido com o programa Cosmics Leaving Outdoor Droplets (Cloud), do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern).

“As conclusões finais do programa sairão apenas em 2010, mas os dados colhidos até agora indicam que, no futuro próximo, podemos esperar por um processo de resfriamento da nossa atmosfera, em vez do aquecimento global”, disse Stozhkov à Agência FAPESP.

“Isso não quer dizer que os raios cósmicos determinam sozinhos o ambiente na Terra. Eles são apenas um ingrediente importante do clima. Também não quer dizer que podemos esquecer a mitigação das emissões de carbono”, disse o pesquisador, que também pertence à Academia Russa de Ciências.

Com o objetivo de estudar a influência de cargas elétricas na formação de gotículas d’água na atmosfera, o programa Cloud procura reproduzir o processo em laboratório. Para isso, os cientistas irradiam partículas aceleradas em câmaras de nuvens de vários tamanhos.

“Por muitos anos tenho estudado a influência da atividade solar nos fluxos de raios cósmicos. Há cerca de dez anos descobrimos que esses fluxos estão conectados a vários fenômenos elétricos, como a formação de nuvens baixas. Eles influenciam também os padrões de cobertura global das nuvens”, explicou.

Segundo ele, quando a radiação penetra na atmosfera terrestre, ela acelera a formação de aerossóis, ou grupos de moléculas, que se aglutinam e compõem a base da formação de gotículas nas nuvens.

“Uma nuvem com um número maior de gotículas reflete a luz solar incidente de forma mais eficiente e se torna mais estável, produzindo um efeito de resfriamento. Uma variação de uma pequena porcentagem nesse processo afeta de forma significativa o clima global”, disse.

Mais raios no futuro

A questão do aquecimento global, segundo o físico, passará ainda por muita discussão. “É importante desenvolver modelos climáticos, como vem sendo feito. Mas achamos que é preciso conseguir novos dados experimentais sobre o Sol, o espaço interplanetário e a Terra para, de fato, combater o problema”, destacou.

Stozhkov explica que o mecanismo de resfriamento inclui a influência sobre a atmosfera da poeira zodiacal – uma nuvem de grãos que medem de 1 a 10 micrômetros e se concentra no plano da órbita da Terra ao redor do Sol. “Ao entrar na nossa atmosfera essa poeira muda de concentração e também altera a cobertura de nuvens e, em conseqüência, a temperatura do planeta”, disse.

A Terra, segundo o professor russo, é protegida dos raios cósmicos pela atmosfera e pela magnetosfera, que os repelem. Mas quando os clarões solares são mais intensos, acelerando as partículas, os fluxos de raios são aumentados em dez ou cem vezes em comparação com condições de calma na atividade solar.

“Nos próximos 50 anos o número de raios deverá aumentar consideravelmente, elevando a produção de nuvens baixas. Isso deverá gerar um resfriamento da Terra que não apenas vai compensar o aquecimento causado pela ação antropogênica, mas que deverá superá-lo, podendo levar a um efetivo resfriamento global”, disse.

Segundo Stozhkov, a hipótese causará mais polêmica à medida que houver mais dados experimentais. “Essa idéia será muito combatida nos próximos cinco anos, mas o processo científico é esse mesmo e o debate será saudável para o conhecimento”, afirmou.

História: Renúncia de Fidel pode alterar relações com EUA



Raphael Prado


A renúncia do presidente cubano Fidel Castro, aos 81 anos de idade, pode alterar as relações com o governo norte-americano, sobretudo se os democratas venceram as eleições de novembro nos Estados Unidos. A visão é de Mônica Lessa, professora de Relações Internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

Na madrugada desta terça-feira (no Brasil), o líder da ilha entregou o poder ao irmão, Raúl Castro - que já ocupava o cargo desde que Fidel adoeceu, em 2006. Para a professora, a renúncia deliberada (sem esperar que o poder fosse entregue após a sua morte) ocorre para legitimar a autoridade de Raúl:

- Ele (Raúl) vem sendo preparado desde 1959 para isso. A renúncia significa que o estado de saúde do Fidel se agrava e essa é uma tentativa de fortalecimento de poder político do irmão.
Para ela, as eventuais mudanças políticas e nas relações exteriores de Cuba só poderão ser sentidas daqui a algum tempo. Por enquanto, na prática, Fidel continua exercendo o poder, embora de maneira mais discreta.

Recentemente, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva encontrou-se com Fidel, em Cuba, e declarou que o cubano estava com saúde "impecável" e "pronto para assumir o seu papel político". A ascenção de Raúl ao poder, para Mônica Lessa, não muda as relações com o Brasil, já que elas sempre foram muito boas, "sobretudo neste governo".

Leia os principais trechos da entrevista com a professora de Relações Internacionais da Uerj.

Terra Magazine - A renúncia de Fidel e a entrega do poder ao irmão dele muda algo, na prática, na política cubana?

Mônica Lessa - Olha, em termos institucionais, num imediato, não. Desde a revolução a gente lê os discursos e biografias do Fidel e sabe que ele sempre disse que o sucessor político era o irmão Raúl, por ele acreditar que era quem se encontra mais próximo ideologicamente dele. Ele (Raúl) vem sendo preparado desde 1959 para isso. A renúncia significa que o estado de saúde do Fidel se agrava e essa é uma tentativa de fortalecimento de poder político do irmão. Os grupos políticos em Cuba começam a fazer pressão e para o cenário internacional isso é importante. Ainda que sejam dois irmãos e ambos ligados historicamente ao nascimento da Cuba revolucionária.

Mas mudanças poderão ser sentidas rapidamente?

Os ajustes serão percebidos daqui a algum tempo. Talvez após a morte do Fidel. Eu não acredito que haja, na prática, nada de peso. Ele vai continuar ainda coordenando, mas muito mais discretamente. Vai depender do que acontecerá dentro da ilha. Como os grupos políticos vão perceber isso. E vai depender do estado de saúde dele, se ele continua podendo apoiar moralmente o irmão, vai depender da conjuntura da política externa norte-americana... E com o tempo os ajustes vão ser percebidos em relação à política externa norte-americana, se houver mudança significativa.

Há chance de haver uma mudança significativa nesse relacionamento com os EUA?

Eu acho que pode haver sim um abrandamento dos democratas em relação a Cuba. Não significativo, mas pode haver. Não se pode esquecer que o eleitorado cubano nos EUA é importante, não só para pressionar contra o governo Castro mas para impedir qualquer tipo de invasão. Isso funciona nos dois sentidos. Pode haver, sim, um abrandamento em relação à política norte-americana.

Ou seja, depende também do resultado das eleições de novembro, nos EUA?

Ah, sim, com certeza.

E se os republicanos continuarem no poder, nada muda.

Não, o status quo se mantém.

Em relação ao governo brasileiro, que já tinha um bom relacionamento com Cuba, tudo deve continuar igual...

É, o governo brasileiro sempre manteve boas relações com Cuba, sobretudo o atual governo brasileiro.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Amazônia será novo argumento contra carne, diz Ricupero

São Paulo - O embaixador e ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero disse ontem que o embargo europeu à carne brasileira tende a crescer, à medida que a Europa tomar conhecimento de que boa parte da criação de bovinos avança sobre a Amazônia. "Embora a causa do problema seja a questão sanitária, é óbvio que nas entrelinhas existe essa preocupação, porque a região em que há menos controle sanitário é exatamente a Amazônia", afirmou. "À medida que o público europeu tomar conhecimento de que boa parte dessa carne é produzida por causa da destruição da floresta, vai ser mais um argumento de peso contra o Brasil."
De acordo com dados preliminares do Censo Agropecuário 2006, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o atual rebanho bovino brasileiro é formado por 168,9 milhões de cabeças. Os números, no entanto, não contemplam a totalidade do rebanho da região Centro-Oeste, que inclui os maiores produtores, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, Estados que fazem parte da Amazônia Legal. Técnicos estimam que o total do rebanho em áreas da Amazônia Legal é de 75 milhões de cabeças.
Para Ricupero, o País não está se preocupando com questões que podem vir a restringir mercados para o produto brasileiro no futuro próximo. "Hoje é a carne, não faz muito tempo foi a soja, tanto que os produtores tiveram que assumir um compromisso de que não exportariam soja oriunda das zonas desmatadas. Então, passo a passo, nós vamos fechando mercados", afirmou Ricupero.
Segundo o embaixador, a Amazônia está se transformando em um imenso e improdutivo curral. "No fundo, o que você tem na Amazônia hoje é apenas a extração ilegal de madeira, a queimada para colocar gado, depois de algum tempo aquilo degenera, porque o solo é pobre e essas áreas são abandonadas." Ricupero criticou duramente o governo Lula. "O governo não é capaz de definir o modelo de desenvolvimento sustentável para a Amazônia", afirmou.
Frigoríficos
A Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne (Abiec) não se manifestou sobre o embargo da União Européia à lista de 523 fazendas brasileiras, por considerar que a informação ainda não havia sido confirmada pelo Itamaraty.
Grandes frigoríficos, como JBS Friboi, Grupo Bertin e Marfrig estão direcionando a produção que seria exportada para a União Européia para outros destinos e também para o mercado interno. Isso já traz reflexos ao preço da carne nos açougues - em São Paulo, o preço da carne de primeira teve queda de 2,63% na segunda semana de fevereiro, segundo dados da Fundação Procon-SP divulgados ontem.
Para Antenor Nogueira, presidente do Fórum Nacional da Pecuária de Corte da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), teria sido melhor se o governo brasileiro não tivesse enviado lista nenhuma à UE. "Nós não queríamos que mandassem a lista, fosse de 300, 500 ou 2 mil propriedades, pois a totalidade das fazendas tem condições de exportar", afirmou. "A realidade é que o embargo europeu não passa de reserva de mercado."
As informações são do jornal O Estado de S. Paul

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Ciência - Imunologia: Primeiro movimento


(Acima, Detalhe da Porta do inferno, de Rodin)

Descoberta enzima que pode causar a inflamação e a dor da artrite

Quando todos olhavam para um lado, elas olharam para outro. Fizeram perguntas diferentes e descobriram coisas muito interessantes. Duas cientistas do Instituto Butantan, Catarina Teixeira e Cristina Fernandes, viram que uma mesma proteína encontrada em abundância nos estágios mais avançados da artrite (algo que todos dessa área sabiam) pode também ser uma das causas dessa enfermidade (essa é a parte que ninguém mais parece ter pensado ou demonstrado). O que elas descobriram, em conjunto com pesquisadores da Universidade Federal do Ceará e da Universidade de Costa Rica, faz mais do que jogar luz nos tortuosos labirintos da inflamação e da dor que gradativamente se apossam de articulações como joelhos, cotovelos, punhos e mãos. Também ajuda a compreender melhor como e por que os tratamentos atuais podem ou não funcionar para conter essa doença, que persegue principalmente as mulheres, em uma proporção três vezes maior que os homens, e começa a aparecer por volta dos 35 anos. No Brasil aproximadamente 2 milhões de pessoas convivem com a artrite e, nos casos mais graves, evitam se mover para escapar da dor, como se houvessem se tornado prisioneiras do próprio corpo.

“A natureza é econômica”, comenta Catarina, explicando como, a partir desta constatação tão simples, ela e Cristina se perguntaram se a mesma proteína não poderia ter funções mais amplas e relevantes. O artigo que publicaram no ano passado na British Journal of Pharmacology deixa claro como a molécula que estudaram – a BaP1, extraída do veneno de uma serpente e muito similar à de seres humanos – aciona e alimenta os processos inflamatórios típicos da artrite. É também ela que promove a liberação de substâncias inflamatórias conhecidas como prostaglandinas e citocinas, que causam dor nas articulações, e ainda corrói as cartilagens nos estágios mais avançados da doença. Somado aos resultados obtidos por outros grupos de pesquisa, esse trabalho ajuda a eleger essas proteínas – enzimas chamadas de metaloproteases por carregarem um metal, normalmente zinco – como alvo potencial para combater não só a artrite como também tumores e outras doenças de cujo desenvolvimento participam.

Normalmente, diferentes tipos de metaloproteases trabalham como uma equipe de manutenção, removendo o que não é mais utilizado no espaço entre as células, além de participarem da formação e da recomposição de tecidos. Só se rebelam quando o controle habitual do organismo por alguma razão deixa de funcionar. É quando podem favorecer o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, o espalhamento de tumores ou a produção intensiva de moléculas bem menores como o fator de necrose tumoral-alfa (TNF-alfa). Quando ativado, o TNF-alfa recruta células do sangue envolvidas na inflamação, um dos recursos do organismo para deter vírus, bactérias e tumores; se abundante, porém, pode intensificar a inflamação e a dor na artrite.

Uma linha de medicamentos contra a artrite adotada atualmente procura bloquear a ação do TNF-alfa, enquanto outra abordagem trata de aplacar a ação de todo o sistema de defesa do organismo, que, por motivos ainda desconhecidos, passa a reconhecer as cartilagens das articulações como algo estranho, a ser eliminado. Pôr rédeas nas metaloproteases, uma possibilidade levantada pelos estudos mais recentes, implicaria controlar a produção dessas pequenas moléculas que inflam a inflamação, os TNF. O que é simples de imaginar, porém, é difícil de executar e, alertam as cautelosas pesquisadoras do Butantan, talvez não muito seguro. Em vista da versatilidade dessas enzimas, a artrite poderia desaparecer, mas processos fisiológicos relevantes como a cicatrização e a fertilização poderiam ser prejudicados.

Energia: Bactéria geneticamente modificada vira fábrica de hidrogênio




Fábrica de hidrogênio
Agora, cientistas da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, descobriram que, manipulando os genes adequados da E. coli, pode ser possível transformá-la de uma fonte de doenças em uma fonte de energia renovável de alto rendimento.

E não qualquer tipo de energia, mas hidrogênio, apontado como o combustível do futuro, por não emitir nenhum tipo de poluente. A alteração genética produziu uma linhagem de E. coli capaz de produzir 140 vezes mais hidrogênio do que acontece no processo biológico normal.

Bactéria geneticamente modificada
A equipe do professor Thomas Wood deletou seis genes específicos do DNA da bactéria, transformando-a em uma mini-fábrica produtora de hidrogênio, abastecida por açúcar. A conversão da glicose por meio da fermentação, que é um processo natural, foi incrementado mais de uma centena de vezes.

A manipulação genética não produziu nenhuma espécie de super-bactéria. "Quando nós retiramos as coisas, as bactérias tornam-se menos competitivas. Nós não lhes demos a capacidade para fazer alguma coisa. Elas não ganharam nada aqui, elas perderam. As bactérias que nós estamos fazendo são menos competitivas e menos danosas por conta do que foi removido," explica o cientista.

8 ou 80
O processo de produção biológica de hidrogênio é promissor, mas o pesquisador afirma que está apenas começando e que ainda está distante de uma aplicação prática. Segundo ele, com o rendimento atual das suas bactérias geneticamente modificadas, seriam necessários 80 quilogramas diários de açúcar para abastecer com hidrogênio as necessidades de energia de uma residência média.

"Nós estamos tentando sintetizar bactérias para que elas não exijam 80 quilogramas; essa exigência estará mais próxima dos 8 quilogramas," diz Wood.

Fonte: Inovação Tecnológica

OGM's - O revés: Via Campesina faz protesto contra milho transgênico

Movimentos sociais e personalidades como Fábio Konder Comparato e Beth Carvalho alertam para os riscos ao meio ambiente e à saúde de uma eventual liberação das variedades produzidas pela Bayer e pela Monsanto

Mayrá Lima,de Brasília (DF)

O Conselho Nacional de Biossegurança (CNBS) se reuniu nesta terça-feira (12) para deliberar sobre o pedido de liberação dos milhos geneticamente modificados da Bayer e da Monsanto. Movimentos sociais, organizados na Campanha por um Brasil Livre de Transgênicos, preparam um protesto contra a liberação da comercialização do alimento.

Os 11 ministros do Conselho vão apreciar dois recursos que foram apresentados contra a decisão já tomada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que liberou duas variedades de milho transgênico para uso comercial, uma da Bayer (Liberty Link) e outra da Monsanto (MON 810). Os autores do recurso são a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (IBAMA).

Uma carta endereçada ao ministro Tarso Genro (Justiça), assinada por personalidades como o jurista Fábio Konder Comparato e as artistas Beth Carvalho e Dira Paes, contesta a decisão da CTNBio. "A liberação da comercialização destas variedades de milho transgênico com tantos óbices, como apresentados pela Anvisa e pelo Ibama, representaria uma flagrante e inconstitucional sobreposição dos interesses econômicos das empresas interessadas nas liberações comerciais à saúde da população à necessidade de proteção do meio ambiente e também dos interesses dos agricultores e consumidores que não querem plantar ou consumir alimentos transgênicos", avaliam, em carta (leia a íntegra).

Histórico
A última reunião do Conselho Nacional de Biossegurança ocorreu em 29 de janeiro. Na ocasião, os 11 ministros receberam do bispo emérito de Goías e membro da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Dom Tomás Balduíno, uma cesta de alimentos agroecológicos em protesto contra a decisão da CTNBio, que havia liberado a comercialização mesmo sob as ressalvas da Anvisa e do Ibama. O Conselho, no entanto, não deliberou sobre a questão e adiou para essa terça-feira passada (12) a decisão.

"A Anvisa apresentou questões muito sérias que comprovam que o milho transgênico pode causar danos à saúde e que não foram consideradas pela CTNBio", diz Isidoro Revers, membro da CPT. No caso do milho MON 810, da Monsanto, a Anvisa pediu a suspensão imediata da liberação por avaliar que os dados apresentados pela empresa "não permitem concluir sobre a segurança de uso para consumo humano".

Para o Ibama, a liberação do milho Liberty Link, da Bayer, deve ser anulada "em razão dos inúmeros vícios de que padece o processo" - entre eles, "a inexistência de estudos ambientais". Assim como a soja transgênica Roundup Ready, este milho também é resistente a um herbicida e, da mesma forma, acarreta problemas ambientais e agronômicos. Segundo o Ibama, "para cada quilo de princípio ativo [de herbicida] reduzido no RS, houve um aumento de 7,5 kg de glifosato no período de 2000 a 2004, época de expansão da área da soja RR" resistente ao glifosato. O Ibama também aponta que, caso a liberação comercial do milho transgênico ocorra, será inevitável a contaminação das variedades crioulas, orgânicas e ecológicas.

Na terça-feira 12, à tarde, os movimentos que compõem a Campanha Por um Brasil Livre de Transgênicos se reuniram com o secretário-executivo do Ministério da Justiça, Luiz Paulo Barreto. Para os militantes presentes, é imprescindível que o Ministério se posicione contrário à liberação. "O direito dos trabalhadores em plantar orgânicos sem contaminação, a questão da rotulagem dos transgênicos, a falta de pesquisas que assegurem a nossa biodiversidade e saúde são problemas que o Ministério da Justiça não pode se ausentar", disse Isidoro Revers, membro da CPT e da Via Campesina.

Lei de Biossegurança

A avaliação do Conselho Nacional de Biossegurança (CNBS) é a última instância deliberativa do governo federal sobre a comercialização de espécies transgênicas. Com a aprovação da Lei de Biossegurança, as empresas que desenvolvem as sementes geneticamente modificiadas precisam submeter seus relatórios a uma análise da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que pode encaminhar a decisão para o CNBS ratificá-la.
(Matéria enviada pelo companheiro e colaborador deste Blog Toninho da Paraíba)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

OGM's: Brasil lidera a expansão de lavouras transgênicas com crescimento de 3,5 milhões de hectares em 2007

Os agricultores brasileiros cultivaram 15 milhões de hectares de lavouras transgênicas em 2007, apresentando o maior crescimento absoluto do mundo em adoção de biotecnologia agrícola. O País plantou 3,5 milhões de hectares a mais em relação a 2006, quando cultivou 11,5 milhões de hectares. Logo atrás do Brasil estão os EUA, com 3,1 milhões de hectares de crescimento, e a Índia, com 2,4 milhões.
Em porcentagem de crescimento, o Brasil também melhorou seu despenho em área cultivada com transgênicos, saltando de 22% em 2006, para 30% em 2007. No ano passado, apenas a Índia superou o País, com alta de 63%, saltando de 3,8 para 6,2 milhões de hectares.
Da área total de transgênicos plantados no Brasil, cerca de 14,5 milhões de hectares foram cultivados com soja tolerante a herbicida. Os outros 500 mil hectares foram dedicados ao cultivo do algodão resistente a insetos, liberado para comercialização no País em 2005.

Área com transgênicos cresce 12% no mundo

A área global de plantações geneticamente modificadas (GM) cresceu 12,3 milhões de hectares em 2007, ou 12% em relação ao período anterior. Com o aumento – o segundo maior nos últimos cinco anos –, as lavouras transgênicas alcançaram 114,3 milhões de hectares cultivados.
O número de países que usaram biotecnologia em suas lavouras também subiu para 23, com a chegada de culturas GM na Polônia e no Chile. Antes de 2007, cultivavam transgênicos os agricultores dos seguintes países: EUA, Argentina, Brasil, Canadá, Índia, China, Paraguai, África do Sul, Uruguai, Filipinas, Austrália, Espanha, México, Colômbia, França, Honduras, República Tcheca, Portugal, Alemanha, Eslováquia e Romênia.

Cenário dos principais países produtores de transgênicos por continente

Américas – Os Estados Unidos continuam firmes na posição de maior produtor mundial de transgênicos, com uma área plantada de 57,7 milhões de hectares, o que equivale a 50% de todas as lavouras geneticamente modificadas do mundo. Em 2007, os agricultores norte-americanos cultivaram 3,1 milhões de hectares de transgênicos a mais em relação a 2006, um aumento de 5,7%. O aquecimento do mercado de etanol elevou em 40% a área dedicada ao milho GM no país, onde o álcool é produzido a partir do cereal. Já a Argentina aumentou suas lavouras transgênicas em 1,1 milhão de hectares, um crescimento de 6% em relação a 2006. Com uma área total de transgênicos de 19,1 milhões de hectares, a Argentina se manteve atrás apenas dos Estados Unidos.
Ásia – Pelo terceiro ano consecutivo, a Índia registrou o maior crescimento proporcional do mundo nas lavouras transgênicas, com aumento de 63% em relação a 2006. A razão é o aumento de rentabilidade garantido pelo algodão Bt (único transgênico liberado para plantio no país), que pode render até 50% mais que as variedades convencionais por ser resistente a insetos. Entre 2002 e 2007, a área cultivada com algodão GM na Índia cresceu de 50 mil para 6,2 milhões de hectares, cultivados por 3,8 milhões de pequenos agricultores. Na China, mesmo com uma área plantada menor, o número de pequenos produtores de algodão GM atinge 7,1 milhões de pessoas, pois as propriedades medem em média apenas 0,59 hectare. A área plantada com o algodão Bt na China atingiu 3,8 milhões de hectares, acima dos 3,5 milhões de hectares de 2006.
África – A África do Sul é o único país do continente que comercializa produtos GM. Em 2007, a área plantada com transgênicos atingiu 1,8 milhão de hectares, quase 30% acima do registrado no ano anterior. O destaque é o milho GM, que já ocupa dois terços do 1,7 milhão de hectares de área de milho branco (para alimentação) do país.
Europa – Em 2007, oito países da União Européia (UE) cultivaram lavouras GM – ante seis países em 2006. A área plantada total com milho Bt na UE superou os 100 mil hectares pela primeira vez, com uma taxa de crescimento anual de 77%. A Espanha é líder no cultivo de transgênicos na Europa, com cerca de 70 mil hectares plantados em 2007, o equivalente a um crescimento de 20% sobre o ano anterior. Nos outros sete países do bloco que adotaram a biotecnologia agrícola, a área plantada quadruplicou entre 2006 e 2007, para 35,7 mil hectares.

Pequenos agricultores são 90% dos produtores de transgênicos do mundo

Pela primeira vez, mais de 10 milhões de pequenos agricultores utilizaram sementes transgênicas no mundo. Do total de 12 milhões de produtores que adotaram lavouras GM em 2007, cerca de 11 milhões foram agricultores familiares de países em desenvolvimento. Em 2006, 10,3 milhões de produtores haviam plantado transgênicos, dos quais 9,3 milhões possuíam pequenas porções de terra.
Entre os pequenos agricultores que adotaram a biotecnologia em 2007, a maior parte plantou algodão Bt, sendo 7,1 milhões na China e 3,8 milhões na Índia. O restante, 100 mil produtores de outros países, optaram por distintas culturas transgênicas.

Transgênicos crescem mais nos países emergentes

Durante o período de 1996 a 2007, a participação dos países emergentes na área global de lavouras GM aumentou de forma consistente ano após ano. Em 2007, 43% da área global com biotecnologia agrícola foi cultivada em países emergentes, ante 40% em 2006, atingindo 49,4 milhões de hectares. O crescimento entre 2006 e 2007 foi substancialmente mais alto nesses países – 8,5 milhões de hectares ou 21% de crescimento – do que nos países industrializados – 3,8 milhões de hectares ou 6% de crescimento.
Vale ressaltar que quatro dos seis principais países produtores de transgênicos do mundo são emergentes (Argentina, Brasil, Índia e China) e que os cinco principais países em desenvolvimento que plantam lavouras GM abrangem todos os três continentes do Sul: Índia e China na Ásia, Argentina e Brasil na América Latina e África do Sul no continente africano.

Milho supera soja como cultura mais importante para o setor de biotecnologia

O milho representou 47% do mercado global dos produtos GM em 2007, que atingiu US$ 6,9 bilhões, de acordo com a consultoria Cropnosis. O mercado de milho GM totalizou US$ 3,2 bilhões, superando a soja GM, que gerou um mercado de US$ 2,6 bilhões – o equivalente a 37% do total. Em 2006, o quadro era inverso: o milho representava 39% do mercado global de transgênicos, enquanto a soja liderava o ranking com 44%. Para 2008, o valor global do mercado dos produtos GM está projetado em aproximadamente US$7,5 bilhões.
O mercado mundial de produtos transgênicos representou 16% dos US$ 42,2 bilhões do mercado global de proteção de cultivos em 2007, e 20% dos cerca de US$ 34 bilhões do mercado comercial de sementes, ainda segundo a Cropnosis. O cálculo do valor de mercado do mercado global de produtos GM baseia-se no preço de venda das sementes GM, juntamente com quaisquer outros encargos aplicáveis da tecnologia. Considerando que as primeiras culturas transgênicas foram comercializadas em 1996, o valor global acumulado até 2007 é calculado em US$ 42,4 bilhões.

Fonte: Conselho de Informações sobre Biotecnologia - CIB

Meio ambiente: Unesco lança Ano Internacional da Terra

A Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) lançou nesta terça-feira em Paris o Ano Internacional do Planeta Terra. O evento, que conta com a participação do Brasil, reúne cientistas, representantes de governos e empresários para discutir temas ligados ao meio ambiente.

Um dos principais objetivos do ano internacional é fazer com que os líderes de governos tenham melhor acesso aos conhecimentos dos cientistas sobre o planeta para elaborar políticas ambientais.

“Muitas vezes o conhecimento científico fica restrito aos pesquisadores. Se os políticos pudessem utilizar melhor esses dados, o impacto de muitos desastres naturais poderia ser menor para a sociedade, afetando menos pessoas”, disse à BBC Brasil o holandês Eduardo de Mulder, diretor-executivo do Ano Internacional do Planeta Terra.

No encontro em Paris, realizado durante dois dias, serão discutidos temas como o crescimento demográfico, mudanças climáticas, recursos do planeta e também a questão da prevenção dos riscos naturais.

O evento na capital francesa marca o lançamento de uma série de programas que serão realizados até o próximo ano em inúmeros países, incluindo o Brasil.

Consciência
De acordo com Mulder, o Brasil organizará no mês de abril um evento reunindo representantes de governo, cientistas e industriais.

“A finalidade do Ano Internacional é a tomada de consciência sobre o futuro do planeta Terra. É também fazer com que os temas discutidos se tornem uma prioridade política”, diz Antônio Ricarte, da delegação do Brasil na Unesco.

Segundo ele, o evento também deve permitir uma maior conscientização dos jovens em relação ao meio-ambiente.

A Unesco promoveu um concurso de redações sobre os temas que serão discutidos ao longo do ano entre estudantes do mundo todo. Três brasileiros tiveram seus textos selecionados e apresentarão seus trabalhos em Paris.

Além dos assuntos que serão discutidos em Paris durante dois dias, o Ano Internacional prevê debates sobre dez temas no total, que incluem também a saúde, os solos e oceanos e as grandes cidades.

Para o geólogo Robert Missoten, chefe da seção de observação da Terra na Unesco, o Brasil, com seu programa de satélites, pode contribuir consideravelmente para os estudos sobre o planeta.

“O Brasil é um dos países mais importantes em relação aos avanços para melhor estudar a Terra e compreender os fenômenos ligados ao meio ambiente”, diz o cientista.

Daniela Fernandesde, de Paris para a BBC Brasil

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Energia renovável: Cientistas de Taiwan criam biocombustível a partir da palha do arroz

Um laboratório oficial de Taiwan anunciou nesta segunda-feira (11) que está realizando pesquisas para extrair álcool da palha do arroz e, assim, ampliar as fontes de biocombustíveis.

Os pesquisadores taiwaneses já fizeram experiências bem-sucedidas com um protótipo de sistema de produção e esperam terminar uma fábrica-piloto até o final de 2009, informou o Conselho de Energia Atômica, patrocinador do projeto.

"Da palha pode-se extrair componentes com os quais é possível produzir álcool com 99,5% de pureza", disse o diretor do projeto, Wang Chia-bao, em entrevista coletiva.

O uso da palha do arroz tem mais vantagens que o da cana-de-açúcar ou do milho, destacou Wang."

A palha é um produto secundário, não afeta a produção de alimentos e sua venda complementará a renda dos agricultores", afirmou o pesquisador.

A única desvantagem do uso da palha é o alto custo de produção.

"O valor supera o de outros processos. Atualmente é de US$ 0,67 por litro, mas esperamos reduzi-lo a menos da metade", disse.

Taiwan está promovendo o uso de fontes de energia alternativa para enfrentar os altos preços do petróleo, como a eólica e os biocombustíveis.

(Globo Online)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Gestão ambiental: Senado vai discutir transposição do rio São Franscisco

Na imagem ao lado aparece um detalhe da foz do velho Chico, ocorrendo no Oceano Atlântico, entre Sergipe e Alagoas.

A Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) realizará audiência pública na próxima quinta-feira (14), às 9h, para discutir a transposição de águas do rio São Francisco, conforme requerimento do senador Eduardo Suplicy (PT-SP) aprovado nesta quinta-feira (7) pela comissão. A intenção do debate, disse o senador, é esclarecer os senadores sobre o Projeto de Integração do Rio São Francisco com as Bacias Hidrográficas do Nordeste Setentrional.
Suplicy explicou que o programa abrange sete estados e deve atingir cerca de 16 milhões de trabalhadores rurais. Para o senador, a dimensão social e financeira do projeto de transposição do rio deve ser esclarecida para que seja possível uma melhor análise das dotações orçamentárias previstas para o empreendimento.

Para o debate - que será realizado com as Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE), de Serviços de Infra-Estrutura (CI) e de Desenvolvimento Regional e Turismo (CDR) -, serão convidados o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima; o deputado e ex-ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes (PSB-CE), em cuja gestão foi lançado o projeto; o bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio; o secretário de Infra-Estrutura Hídrica do Ministério da Integração Nacional, João Reis Santana Filho; o deputado Marcondes Gadelha (PSB-PA); e a atriz Letícia Sabatella, que integra o Movimento Humanos Direitos.

Também devem participar do debate o gerente do Programa São Francisco, de responsabilidade do Consórcio Logos-Concremat, Rômulo Macedo; a promotora de Justiça da Bahia e coordenadora da Promotoria de Justiça do Rio São Francisco, Luciana Khoury; o presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas, Apolo Heringer Lisboa; os professores Paulo Canedo de Magalhães e João Abner, das Universidades Federais do Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte, respectivamente; e o ambientalista Henrique Cortez, coordenador do portal e do blog EcoDebate.

O presidente da CDH, senador Paulo Paim (PT-RS), concordou que o assunto não está claro o suficiente seja para a população ou para os parlamentares. Apesar da unanimidade quanto à necessidade de levar água a todos os brasileiros, observou o senador, as vantagens e conseqüências do projeto do governo não são totalmente conhecidas.

O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) disse estar surpreso com a demora da discussão da transposição do rio São Francisco pelo Senado, uma vez que o assunto vem sendo debatido no país há cerca de um ano, lembrou o parlamentar. Em sua opinião, é difícil tomar decisões a respeito do projeto porque se trata de tema polêmico, que precisa conciliar o direito da população de ter água com a necessidade de preservação ambiental.

Direitos Humanos

Na mesma reunião, a CDH aprovou requerimento do senador Paulo Paim, com a finalidade de realizar outra audiência pública, na próxima terça-feira (12), às 9h, destinada a tratar da situação dos direitos humanos no Brasil. Paim explicou que o debate foi solicitado pelo ministro da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, e tem o objetivo de colaborar na elaboração de um relatório com informações a respeito do que o Brasil tem realizado na área de direitos humanos. Esse documento deverá ser apresentado este mês e em abril, no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (ONU). Para debater o tema, o senador sugeriu que fossem convidados representantes de entidades ligadas aos direitos humanos, a serem definidas pela comissão.
Por Iara Farias Borges, da Agência Senado.

Enviado por Toninho da Paraíba ( participante do Grupo " São Fracisco Vivo")

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Desenvolvimento sustentável: Floresta gera riqueza no ciclo sustentável da Amazônia – Parte III

( Ao lado, inicio da Estrada da Borracha)

Texto e fotos: Romerito Aquino
Colaborou: Tião Maia

O boom econômico que vem do manejo sustentável das riquezas da floresta, tanto no seringal Cachoeira quanto em outras áreas extrativistas da Reserva Chico Mendes, está definitivamente animando as pessoas e fazendo circular mais dinheiro nas praças de Xapuri, Brasiléia e outras localidades menores da região do Vale do Acre.

“Percebo que a população está bastante animada. A gente vê o otimismo nos olhos das pessoas”, diz o gerente do Banco do Brasil de Xapuri, Fernando de Oliveira Júnior, ao revelar que só no município, nos últimos três anos, a instituição investiu mais de R$ 3 milhões em empréstimos para pessoas jurídicas, que buscam o dinheiro principalmente para capital de giro, aquele a que os empresários mais recorrem para ampliar suas atividades. O BB também está investindo em projetos sustentáveis de produção de borracha, de castanha, de madeira, de animais silvestres e até de ecoturismo, devido ao potencial que a região de floresta representa para o país e o mundo.

No caso dos empréstimos de Xapuri, há um detalhe importante que o gerente revela em primeira mão: o percentual de inadimplência nos pagamentos dos empréstimos de sua agência tem sido zero, contra a média de 3% registrada nacionalmente pelo banco. “É quase inacreditável, mas nossa taxa de inadimplência com relação aos empréstimos em Xapuri é zero. Isso significa que as pessoas estão acreditando no potencial econômico da região e os empresários, passando a investir mais no município”, relata o gerente do BB. Segundo ele, os dois investimentos fortes no município (fábricas de camisinha e de tacos) “estão fazendo as pessoas acreditarem mais no futuro e podem ser a redenção econômica da região”.

Só a fábrica de camisinhas, que custou R$ 30 milhões ao governo federal, em parceria com o governo do Estado, está comprando a R$ 3,40 o quilo da borracha seca produzida por 700 famílias de seringueiros da reserva extrativista Chico Mendes. No auge do funcionamento, a fábrica vai gerar 150 empregos diretos, consumir 500 toneladas de látex in natura por ano e produzir anualmente 100 milhões de preservativos, reduzindo a necessidade de importação quase total que o país tem hoje em relação a esse produto.

Por sua vez, a fábrica de tacos e decks, que custou cerca de R$ 35 milhões, financiados pelo governo do Estado junto ao BNDES, também vai gerar cerca de 150 empregos diretos e consumirá, preferencialmente, a produção comunitária de madeira manejada por mais de 600 seringueiros da Reserva Extrativista Chico Mendes, inclusive no Cachoeira.
O gerente do Banco do Brasil revela que há seringueiros hoje procurando o banco para abrir conta corrente e saber das linhas de crédito que a instituição oferece por meio de seu programa de Desenvolvimento Regional Sustentável (DRS). O BB também está trabalhando com recursos do Programa de Agricultura Familiar (Pronaf) no âmbito da fábrica de camisinhas e de tacos.
Para o gerente, dinheiro para ampliar a economia da região não é problema, mas o que falta ainda são projetos e assistência técnica. “Dinheiro não falta no Banco do Brasil. Aqui em Xapuri, sobra dinheiro. O que falta são projetos e assistência técnica”, diz ele, ao revelar que só de recursos para assentamento de produtores rurais nos projetos do Incra existe hoje uma oferta de mais de R$ 4 milhões.

Novo processo industrial valoriza e aposta na floresta

“O que se vê hoje no seringal Cachoeira é o início do quarto ciclo econômico da Amazônia, que é o do desenvolvimento sustentável”, diz o historiador Marcos Vinicius das Neves, presidente da Fundação Cultural Garibaldi Brasil, de Rio Branco, fazendo fé para que a nova fase, que implica a manutenção e valorização da floresta, não perca espaço para a pecuária, que ainda é, segundo o historiador, muito forte tanto no Acre quanto no resto da Amazônia.

O historiador explica que o quarto ciclo econômico da região de maior floresta tropical do planeta sucedeu o ciclo da pecuária, iniciado na década de 1970, quando, com a ajuda dos governos federal e estaduais e dinheiro do Banco do Amazônia, essa atividade quase sufocou o extrativismo da borracha, que hoje é ainda a base mais forte do manejo de uso múltiplo florestal que inicia o quarto ciclo presente no seringal Cachoeira. O segundo ciclo econômico, segundo Marcos Vinicius, deu-se durante a II Guerra Mundial, que permitiu fortalecer o extrativismo da borracha para ele enfrentar e conseguir sair vivo do massacre da pecuária em cima dos seringueiros e da floresta. O primeiro ciclo econômico da região remonta à época da Revolução Industrial, quando a borracha surgiu como âncora para a diversificação e o consumo dos produtos no mundo.

Para o ex-governador Jorge Viana, em cujo governo de oito anos se valorizaram a borracha, a castanha, a madeira e se conceberam justamente projetos estratégicos para o quarto ciclo econômico que se inicia agora na Amazônia, “os povos da floresta merecem viver esse novo ciclo econômico e social porque foram seus maiores guardiões ao longo da história”. O governador Binho Marques está dando seqüência à estratégia do desenvolvimento sustentável que vem sendo empreendida no Estado de acordo com os ideais de sustentabilidade defendidos por Chico Mendes.

Para idealizar e pôr em prática o propalado conceito de florestania (cidadania na floresta), os governos da Frente Popular do Acre contam com a colaboração direta de outras personalidades de proa da política acreana, como os senadores Tião Viana e Marina Silva (hoje ministra do Meio Ambiente), que demonstram, com muita competência, ao cenário político nacional a importância e a estratégia de desenvolver a Amazônia de forma sustentável para o bem do clima e da humanidade. “Esperamos que esse quarto ciclo econômico resulte em breve em não termos de derrubar mais nenhuma árvore em nosso Estado e em toda a Amazônia”, apregoa Tião Viana, ex-presidente e atual vice-presidente do Senado Federal. A grande maioria das bancadas federal e estadual do Acre também comunga com os mesmos ideais de sustentabilidade da floresta.

Outra figura de grande importância para o surgimento do novo boom florestal do Estado foi o engenheiro Gilberto Siqueira, que há nove anos planeja e gerencia o crescimento da economia acreana em bases absolutamente sustentáveis. Como secretário de Planejamento e Gestão, Siqueira e sua apurada equipe de economistas, engenheiros, arquitetos e profissionais de diversas outras áreas vêm fazendo ao longo de todo esse tempo a ponte executiva com Brasília, o Brasil e o mundo para o Acre continuar despontando como principal modelo de desenvolvimento sustentável para toda a Amazônia.

“O início desse quarto ciclo econômico da Amazônia aqui no Acre mostra o potencial efetivo da floresta. Mostra também que, se houver oportunidades e desenvolvimento tecnológico, a floresta pode gerar muitas riquezas”, diz Siqueira. Para ele, “o desenvolvimento sustentável é um pêndulo que ganha sinergia na medida em que agrega a todos e contempla o passado, o presente e o futuro”.

Gilberto Siqueira também faz questão de frisar que os seringueiros e outros povos da floresta entram no quarto ciclo da economia amazônica integrados a um processo industrial novo, que valoriza a floresta. “Esse processo mostra ao Brasil, que sempre desprezou a floresta, que é possível fazer uma economia forte, limpa, saudável, que pode incluir produtos de futuro, como são os fármacos”, completa. Além da biotecnologia, o secretário também aposta no biomimetismo, que são as diferentes formas da natureza, onde se pode, por exemplo, segundo ele, “desenhar um grande avião copiando a anatomia de um grande inseto da floresta”.

Ciclo atende os ideais de Chico Mendes

Pelo que vimos na presente reportagem, a semente do quarto ciclo econômico da Amazônia está definitivamente instalada na terra de Chico Mendes e ela foi plantada exatamente da forma pela qual o ecologista tanto lutou e sonhou: incluindo o seu povo da floresta.

“O Chico ingressou na luta para mudar a situação do homem da floresta”, diz o seringueiro Duda Mendes, o personagem que foi aleatoriamente escolhido para que, conhecendo sua casa, bebendo a água limpa da floresta no bebedouro elétrico de sua cozinha e conversando algumas horas em sua varanda, pudéssemos reportar a quantas andam, de fato, os verdadeiros e seculares guardiões da floresta, que o mundo quer e tanto precisa ver conservada para o bem das futuras gerações e da vida na Terra.

Para nossa surpresa, pudemos constatar que Duda e seus companheiros vão bem, pois estão totalmente incluídos num processo industrial novo e revolucionário, que contempla, talvez pela primeira vez na história do mundo, a floresta como principal aliada do avanço da humanidade, que sempre precisou de um abrigo para se proteger das intempéries do clima e de uma sombra para avistar melhor seus horizontes no tempo.

No Acre, além de sombra, a floresta está mostrando que, se for bem tratada, pode dar borracha, castanha, madeira, frutas deliciosas, água, remédios, adornos, cosméticos e até paz, muita paz, para quem se dispõe a caminhar por dentro dela para sentir de perto a energia vital de bilhões de seres que nela habitam, voam, rastejam, escalam, gritam, cantam e encantam.

Hoje, a inclusão dos povos da floresta está sendo possível graças à instalação de fábricas de camisinha, de tacos, de móveis, de frango (em construção em Brasiléia) e de móveis de luxo de bambu ou taboca (em início de operação em Assis Brasil), além de muitas pousadas ecológicas que vêm sendo construídas na região para receber turistas do mundo inteiro. São turistas que descerão os Andes peruanos pela Rodovia do Pacífico ávidos por dormir, comer e caminhar dentro da maior e mais rica floresta tropical do globo. No futuro, quem sabe, os povos da floresta podem até ser chamados ao mundo para dar aulas de simplicidade, de solidariedade e de viver em harmonia com a natureza.

Sistema de Gestão Ambiental: Produção consciente é Ecoeficiente!

( Ao lado, imagem projetada de uma nova unidade da Votorantin - Celulose e Papel/ Losango, em Porto Alegre)

O que é um SGA - Sistema de Gestão Ambiental?

É um instrumento organizacional que possibilita às instituições alocação de recursos, definição e responsabilidades; bem como a avaliação contínua de práticas, procedimentos e processos, buscando a melhoria permanente do seu desempenho ambiental. A gestão ambiental integra o sistema de gestão global de uma organização, que inclui, entre outros, estrutura organizacional, atividades de planejamento, responsabilidades, práticas, procedimentos, processos e recursos para implementar e manter uma política ambiental.

Quais os componentes básicos de um SGA ?
Reconhecer que a gestão ambiental se encontra entre as mais altas prioridades da organização; estabelecer e manter comunicação com as partes interessadas, internas e externas; determinar os requisitos legais aplicáveis e os aspectos ambientais associados às atividades, produtos ou serviços da organização; desenvolver o comprometimento da administração e dos empregados no sentido da proteção ao meio ambiente, com uma clara definição de responsabilidades e responsáveis; estimular o planejamento ambiental ao longo do ciclo de vida do produto ou do processo; estabelecer um processo que permita atingir os níveis de desempenho visados; prover recursos apropriados e suficientes, incluindo o treinamento para atingir os níveis de desempenho visados, de forma contínua; avaliar o desempenho ambiental com relação à política, objetivos e metas ambientais da organização, buscando aprimoramentos, onde apropriado, estabelecer um processo de gestão para auditar e analisar criticamente o sistema de gerenciamento ambiental e para identificar oportunidades de melhoria do sistema e do desempenho ambiental resultante; e estimular prestadores de serviços e fornecedores a estabelecer um sistema de gerenciamento ambiental.

Quais os benefícios de um SGA?
Garantir aos clientes o comprometimento com uma gestão ambiental; manter boas e relações com o público e com a comunidade; satisfazer os critérios dos investidores e melhorar o acesso ao capital; obter seguro a um custo razoável; fortalecer a imagem e a competitividade no mercado; aprimorar controle de custos; demonstrar atuação cuidadosa; conservar matérias-primas e energia; facilitar a obtenção de licenças e autorizações; através da certeza do cumprimento da legislação competente; estimular o desenvolvimento e compartilhar soluções ambientais; melhorar as relações entre indústria e o governo; diminuir os riscos de poluição ambiental.

Traduzindo alguns conceitos

Melhoria Contínua
Processo de aprimoramento dos sistemas de gerenciamento, visando atingir melhorias no desempenho ambiental global de acordo com a política ambiental da organização. A melhoria contínua não se aplica só ao gerenciamento ambiental.

Meio ambiente
Circunvizinhança em que uma organização opera, incluindo a, água, solo, recursos naturais, flora, fauna, seres humanos e suas interações.
Aspecto Ambiental
Elemento das atividades, produtos ou serviços de uma organização que pode interagir com meio ambiente.

Impacto Ambiental
qualquer modificação do meio ambiente, adversa, ou benéfica, que resulte no todo ou em parte, das atividades produtos ou serviços de uma organização.

Auditoria do Sistema de Gestão Ambiental
Processo sistemático e documental de verificação, executado para obter e avaliar, de forma objetiva, evidências que determinem se as rotinas de uma organização estão em conformidade com o sistema de gestão ambiental estabelecido pela organização.

Objetivo Ambiental
Propósito ambiental global, decorrente da política ambiental, que um organização se propõe a atingir sendo quantificada sempre que exeqüível.

Desempenho Ambiental
Resultados mensuráveis do sistema de gestão ambiental relativos ao controle de uma organização, sobre seus aspectos ambientais, com base na política, seus objetivos e metas ambientais.

Política Ambiental
Declaração da organização, expondo suas intenções e princípios em relação desempenho ambiental global. Deve ser disponível ao público.

Meta Ambiental
Requisito de desempenho, pontificado sempre que a exeqüível, aplicável à organização ou partes dela, resultante dos objetivos ambientais, que necessita ser estabelecido e atendido para que tais objetivos sejam atingidos.

Parte Interessada
Indivíduo ou grupo interessado em ou afetado pelo desempenho ambiental de uma organização.

Organização
Companhia, corporação, firma, empresa, instituição, ou parte ou combinação destas, pública ou privada, S.A., limitada ou uma outra forma estatutária, que têm funções e estrutura administrativa próprias.

Prevenção de Poluição
Uso de processos, práticas, materiais ou produtos que evitem ou reduzam a poluição, os quais podem incluir a reciclagem, tratamento, mudanças no processo, mecanismos de controle, o uso eficiente de recursos e de substituição de materiais.