sexta-feira, 10 de julho de 2009

AQUECIMENTO GLOBAL: MDL para quando o último apagar a luz

"Nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo estado de consciência que o criou. É preciso ir mais longe. Eu penso 99 vezes e nada descubro. Deixo de pensar, mergulho num grande silêncio e a verdade me é revelada".

ALBERT EINSTEIN

" A longo prazo estaremos todos mortos!" - esta frase de Keynes tornou-se um mantra entre os operadores de commodities e derivativos (derivado de ativos) nos mercados de capitais.

Durante anos treinamos os garotos para que seus negócios fossem rápidos, com resultados de curtíssimo prazo já que a longo prazo estaríamos todos mortos. Agora projete esta frase no imaginário destes brokers para operações que envolvem 30 , 40 até mesmo 200 anos, pois mitigar (reduzir a poluição) não acontece da noite para o dia.

Meio ambiente tem outra lógica. Afinal, precisamos preservar para as presentes e, principalmente, para as futuras gerações. No entanto, esta lógica não bate com a matemática de um sistema que convencionou comprar de manhã e vender à tarde. Tudo é muito rápido. E o mundo das finanças gira zilhões que sequer tem tempo de compensar seus cheques.

Como comprei muita briga por criticar o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo - em especial por criticar o desenho dos "Créditos de Carbono", não poderia perder a oportunidade de registrar minhas impressões neste momento onde a euforia parece tomar conta da razão, quando recebemos simultaneamente currículos de muitos cujas teses sobre o MDL foram objeto de estudos e defesas. Eles procuram "emprego" e projetos.

Neste caso, é importante analisar como se desenham contratos e títulos nos mercados bursáteis (mercados de bolsas). Saber que existem compradores e vendedores e se haverá liquidez, é ponto passível para elaborar um título para o mercado. Falar com os stakeholders (formadores de opinião), identificar os players (jogadores/especuladores), analisar a conjuntura econômica nacional e dependendo do ativo, a internacional, como é o caso do tema "Mudanças Climáticas"; são os primeiros passos para construir um contrato e desenvolver sua implantação.

Acontece que o tema "Mudanças Climáticas" tem infinitas variáveis, que vão desde as alterações climáticas propriamente ditas, até os interesses políticos e financeiros para troca de energias, matrizes fabris e critérios de certificação e classificação de produtos agropecuários e industriais. Transformações de posturas e comportamentos por parte da sociedade que envolvem um profundo debate sobre consumo pró-ativo, consciência ecológica e social, que alidados a discussão em politicas públicas exigem reformas tributárias consideráveis , bem como uma legislação que se adpate a todas estas condições. Não somente a legislação ambiental, uma vez que a brasileira é até considerada avançada, mas a legislação para o mercado de capitais. Essa é um jurassic park!

Não se resume, portanto, no interesse financeiro de alguns investidores estrangeiros em aplicar seus recursos num instrumento econômico que venha a lhes compensar a emissão de dióxido de carbono na atmosfera com a compra e venda de créditos (emission trading). Passa por uma ampla adaptação do conhecimento e informação disponibilizada para que todos possam acompanhar estas alterações econômico-financeiras, ou seja, é necessário democratizar a informação ambiental.

Uma coisa é o tema "Mudanças Climáticas"; outra coisa é o instrumento ou mecanismos que serão utilizados para que estas mudanças sejam realizadas. Estou falando da climática sim, mas também da mudança do sistema financeiro que precisa compreender que, diferente da teoria Keynesiana no qual todos nós operadores fomos doutrinados, existe uma questão de curto prazo fundamentada no Protocolo de Kyoto, que são os impactos destas "Mudanças Climáticas" na vida dos seres humanos, na natureza e no planeta como um todo.

Se curvar às regras dos mercados para atender uma demanda de curto prazo, como se o mercado fosse um Deus e devemos a Ele a nossa subserviência máxima, é pautar um tema da maior relevância para os destinos da humanidade, menosprezando suas consequências econômicas e sócio-ambientais no curtíssimo prazo.

Ter atitudes cidadãs e reconhecer o problema , independente do mercado, é fundamental para que possamos agir na velocidade necessária que pede a urgência do que representam as "Mudanças Climáticas" , a questão ambiental e os problemas e enfretamentos por conflitos que afligem a humanidade. Conflitos que nunca foram novidades, sempre estiveram na passarela da vida; não são moda. Estampam os jornais todos os dias com tragédias humanitárias, injustiças sociais, desumanidades e atrocidades.

Assumir uma postura consciente por um mundo melhor é tratar da ferida na causa e efeito, deixando a consciência reflexiva e coragem para a ação.

A palavra chave é mobilização, por que as ações são simples. E não há insuflação de instrumentos econômicos complexos e mecanismos inalcansáveis a projetos caros que justifiquem investimentos e fortunas em profissionais altamente capacitados. Mas que sejam simples e disponíveis para que todos interessados em se adaptar, capacitar e se envolver ; seja como cidadãos, seja como um profissional treinado, tenham as mesmas chances e oportunidades neste ambiente que qualquer um merece ter!

Sem dúvida o Protocolo de Kyoto cumpriu sua função ao despertar a atenção dos políticos e da mídia, mas que o seu Anexo 12 - o MDL - não seja o mote único como se fosse a salvação do planeta e que a inteligência humana seja capaz de criar formas eficientes e dinâmicas de solucionar o problema o quanto antes, pois do contrário só nos restará pedir : MDL - o último que sair, por favor apague a luz!

Por Amyra El Khalili
Economista. Presidente da ONG CTA. Idealizadora e Fundadora do Projeto BECE (sigla em inglês) Bolsa Brasileira de Commodities Ambientais, da Aliança RECOs Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras e do Movimento Mulheres pela P@Z!. Membro da Comissão de Assuntos Econômicos da Fearab-América (Federación de Entidades Americano Árabes). Professora de pós-graduação e MBA com a disciplina “Economia Socioambiental” em várias Universidades. Indicada para o “Prêmio 1000 Mulheres para o Nobel da Paz” e para o “Prêmio Bertha Lutz”. email: bece@bece.org.br

Link:
http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/3881.html

http://cdm.unfccc.int/index.html

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